Ai meu deus.
Ai meu deus.
AI MEU DEUS.
Era oficial.
Eu estava tendo UM SURTO.
Chama o SAMU. Chama um brigadista. Os bombeiros. Um líder espiritual. Qualquer coisa.
Entrei debaixo do chuveiro como se meu corpo estivesse a exatos mil graus. Minha cara estava tão vermelha que parecia que eu tinha deitado na praia sol de meio dia no meio do verão da Paraíba sem protetor solar.
Estava definitivamente parecendo aqueles gringos esquisitos que chegam ao brasil com a pele branquinha e voltam pra Europa com a pele toda esturricada.
Fazia muito tempo que ninguém me beijava. Tipo muito. Então me perdoem se eu tinha esquecido um pouco como funcionava esse negocio de beijo.
Não que não tivesse sido bom. Pelo contrario. Tinha sido muito bom. Muito melhor do que eu me lembrava dos beijos em geral.
Ele tinha um gosto que eu não conseguia ainda explicar. Era algo muito misterioso, mas, ao mesmo tempo, muito familiar.
Só que tinha sido bem súbito, vamos combinar. Eu precisava de um tempinho a sós com meu pobre cérebro em pane para assimilar o que tinha de fato acontecido.
Então entrei no meu templo sagrado, o chuveiro, para refletir e tentar acalmar meu pobre corpo em curto circuito.
Pelo amor de deus Manuela, se acalme, foi só um beijo. Ninguém te pediu em casamento. Não precisa ficar toda abalada assim.
Coisa mais ridícula
Essa era a parte racional e lógica do meu cérebro (essa parte coincidentemente tinha a mesma voz da Paula dentro da minha cabeça). Mas temos que admitir que normalmente ela era minoritária e bem menos dominante que a parte passional do meu cérebro.
Não consegui nem focar na breguice do banheiro, que tinha uma manta de crochê na privada, e um vestido de crochê na lata de lixo (!). O aposento diminuto era todo feito em azulejos cor de gema de ovo, e o box era daquele estilo de vidro fumê com textura, e a água contava com apenas duas temperaturas: gelo glacial e inferno vulcânico.
Obviamente, como qualquer pessoa decente, eu tomava banho diretamente no inferno vulcânico.
A água quente fervendo na minha pele, por mais prazerosa que fosse, não estava ajudando meus pensamentos a entrarem numa ordem minimamente aceitável, então virei a torneira um quarto de milímetro para a esquerda, na esperança que as aguas das duas temperaturas se misturassem e me atingissem numa agradável ducha morna.
Não foi o que aconteceu. Obviamente, a água no modo gelo glacial me atingiu feito o iceberg que afundou o Titanic, golpeando direto na minha cara.
Eu tive que reprimir muito o grito horripilante que ia acordar o prédio todinho.
Lavei o cabelo na água fria xingando numa média de cinquenta palavrões por segundo. Mas isso ajudou a me distrair e ficar mais calma.
Enquanto eu entrava em pânico por outro fato (NÃO TINHA SECADOR DE CABELO AQUI CACETE), meu cérebro estava lentamente se acalmando.
Mas aqueles olhos negros me encarando tinham ficado gravados na minha retina feito um flash muito forte, que persiste em aparecer toda vez que você fecha os olhos.
Eu sentia aquele olhar tatuado na minha pele feito uma marca de fogo.
Enquanto eu lutava com meu cabelo com uma escova enorme, raciocinava de forma prática sobre o que eu deveria fazer a partir de agora.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Café com Leite
RomansaUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
