Capítulo 31 - Manuela

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Eu já tinha apoiado as duas mãos na mesa que me separava do João Guilherme, pronta para dar o impulso e pular por cima dela, e retirar seus olhinhos das órbitas um por um com minhas unhas de manicure de gel, quando senti a mão gelada de Pedro me deter, me segurando pelo ombro.

- Calma Manuela.

Ele estava pálido como um cadáver, os lábios finos quase desaparecidos de seu rosto. Ele olhava João Guilherme com uma ferocidade assassina, mas sem se atrever a fazer nenhum movimento mais brusco. Obviamente, ele estava completamente petrificado pela besteira descomunal que o João Guilherme tinha acabado de inventar.

Me desvencilhei do aperto de sua mão e me pus a contornar a mesa na direção de meu ex marido, disposta a arrancar um a um os cabelos sedosos da cabeça de sua advogada, que tinha se colocado de pé, bloqueando minha passagem.

- CHEGAAAAAAAAAAA

O grito da juíza interrompeu meu rompante furando meus tímpanos. Ela estava prestes a assassinar qualquer um que se pusesse ao alcance de suas mãos nuas, eu podia sentir.

- Isso aqui não é uma feira e a audiência está encerrada. Quanto à partilha de bens, somente continuaremos com a presença de escolta armada, e de preferência com focinheiras, já que vocês são incapazes de se comportar como pessoas civilizadas. Senhora Manuela, a senhora tem muita sorte de eu não te fazer dormir hoje no chão de uma cela, já que por enquanto a senhora não agrediu ninguém. Sr. João Guilherme, devo adverti-lo que sua insistência em tentar irritar gratuitamente sua ex esposa pode ter reflexos patrimoniais, já que eu serei obrigada a oferecer uma fatia maior da partilha para ela. E agora, todos vocês, FORA!

Ela estava profundamente estressada, era obvio dizer. Provavelmente estava se perguntando por que não tentava um emprego em um ramo do direito mais tranquilo, tipo juíza do tribunal do júri (que julga assassinatos e coisas do gênero).

Três guardas parrudos tinham entrado na sala a mando da magistrada, e nos conduziam para fora com rudeza.

Eu nem tiro a razão. Sério, onde eu fui arranjar um ex marido igual a esse?! Pelo amor de cristo.

Eu vou precisar de uns bons anos de terapia depois desse divorcio, definitivamente.

- João Guilherme, é bom você dormir com um olho aberto a noite, por que eu vou mandar um assassino cortar essa sua garganta, seu desgraçado!

- Ora, o que foi manuzinha? Pergunte ao Pedro para ver se eu não falei alguma mentira.

Então ele se virou e desapareceu no corredor, me deixando com ganas de enfiar uma faca na garganta dele.

Paula nos encarava francamente assustada, sentada em um banco no corredor. Provavelmente ela não esperava que saíssemos da sala de audiências sob escolta. E com certeza ela ouviu o grito injuriado da justiça.

- Meu Deus Manuela, o que diabos aconteceu?

- O imbecil do meu ex marido testando minha paciência, como sempre, falando umas baboseiras absurdas. Você não acredita o que ele falou do Pedro...

Virei para trás, na direção da porta, e Pedro me olhava fixamente. Havia algo errado em seu olhar.

Algo profundamente errado.

- Pedro? Você sabe de onde o João Guilherme tirou essas idiotices da cabeça de ovo dele...?

Silêncio. Minha irmã olhava de mim para o meu advogado com uma cara francamente bem esquisita.

O que é que eu estava perdendo?

- Pedro...?

- Você não vai me perguntar se é verdade o que ele disse?

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