Capítulo 4 - Manuela

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Como que por mágica, acordei na minha cama de infância, rodeada de sol e de cheiro de pão de queijo e café, coberta por uma manta de crochê, depois de ter absolutamente desmaiado na noite anterior. Por um segundo, deixei meu cérebro acreditar que eu tinha dezesseis anos novamente, passando as férias na fazenda, ouvindo os sons delicados dos pássaros e dos cascos de cavalo no cascalho.

Mas aí João Guilherme surgiu na minha mente, e eu tive que sacudir para afastar a lembrança desagradável.

Não era um quarto gigantesco como minha suíte no apartamento em São Paulo, mas me dei conta que era infinitamente melhor. Todo rústico, com móveis de madeira antiga e fotos da infância e da família. A janela enorme dominava o quarto, descortinando a visão para a propriedade. A visão era exatamente como eu me lembrava da infância, com campos verdejantes e árvores frondosas que se estendiam até os cafezais, de um lado, e o pasto, do outro. Tomei uma ducha de água fria, como nos velhos tempos.

Ignorei a mala que viera comigo da viagem à Angra, por que não tinha nada que eu estivesse com muita vontade de usar. Saídas de seda e vestidinhos Chanel não combinavam com a ocasião. No armário antigo havia algumas peças de roupa esquecidas, e me diverti escolhendo calças cumpridas horrorosas e um suéter azul marinho de pelo menos dez anos de idade, meio curto nos braços. Ainda coloquei umas botinas que fariam minhas amigas blogueiras chorarem. Era sempre mais frio na fazenda do que na capital, então ainda coloquei meias grossas de lã.

Na cômoda, meu falecido iphone me olhava indignado, sem bateria por pelo menos umas 12 horas, já que o cabo pirata não tinha funcionado na entrada de energia do meu minicooper. Ele nunca tinha ficado tanto tempo desligado, meu instagram certamente estava bombando de seguidores preocupados com a atípica falta de stories. Foda-se. Joguei o aparelho dentro da gaveta. Eu queria me internar na fazenda por enquanto, sem notícias do mundo real. Além disso, se eu inventasse de postar meu look do dia agora, certamente eu seria internada sob suspeita de esquizofrenia.

O gigantesco relógio antigo que ficava no vão da gigantesca escadaria acusava onze e quarenta da manhã. Puta que pariu. Eu realmente tinha desmaiado. Acordar na fazenda depois de sete da manhã era a mesma coisa que sacrilégio, porém meu pai deve ter percebido que eu precisava descansar e não veio me acordar batendo panela, como ele fazia quando eu era menor e queria dormir só mais cinco minutinhos.

A cozinha tinha a mesa posta mais linda que eu poderia imaginar. Pão de queijo a perder de vista, leite quentinho, manteiga recém batida, pão caseiro e bolo de mandioca. Foda-se a dieta sem glúten e sem lactose.

- Manuela Morales Diniz! Você não vai falar direito comigo não, menina mal criada!?

Malu me abraçou com força, até me dar falta de ar. Malu era simplesmente a melhor cozinheira de todo o estado de São Paulo, e trabalhava conosco na fazenda desde que eu era uma criança.

- Malu, que saudades!!! Eu sabia que essa mesa de café não era a toa, era você querendo me engordar!

- Ora menina tonta! Eu até conseguia quando você era novinha, mas depois que mudou pra cidade e começou a comer só comida de passarinho ficou esse palito.

Gargalhei com vontade. Eu era uma criança gordinha mesmo, e quando mudei para São Paulo para estudar eu emagreci simplesmente por que não comia mais dez pães de queijo com bolo de mandioca todo dia.

Sentei na mesa e fiz Malu sentar do meu lado enquanto eu comia uma quantidade monstruosa de pão de queijo. Ela tagarelava alegremente sobre o meu comportamento ingrato de não visitar constantemente. Malu era o tipo de pessoa que não envelhecia. Gordinha como toda cozinheira de excelência, tinha uma cara roliça e alegre, de bochechas muito rosadas e riso fácil. Era literalmente a alma da casa.

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