Acho que ninguém consegue explicar exatamente o que se passa na cabeça de uma mulher quando ela chega em casa e percebe que seu marido está com outra pessoa no quarto.
Era a história clássica. Eu tinha voltado mais cedo de viagem, numa mão a mala de viagem, na outra uma caixinha de muffins do aeroporto, que eu gentilmente guardara para compartilhar com meu marido. A gente chega querendo surpreender, já que em casa só tem coisa sem glúten sem lactose e sem sódio.
Ai vem o DESTINO, esse amável terrorista, e fala peraí minha linda, quem surpreende aqui sou eu.
Bom, eu não sei exatamente dizer. Sinceramente, minha cabeça ficou em branco enquanto eu caminhava lentamente pelo corredor em direção ao quarto, de onde eu ouvia gemidos.
Eu queria muito dizer que sou o tipo de mulher barraqueira que pega uma faca no caminho da cozinha, ou que tem uma pistola cromada no bolso falso da Louis Vitton. Infelizmente, eu não sou. Minha Louis Vitton só tem batom e umas embalagens velhas de chocolate. A única providência prática que eu tomei foi dar uma mordida desesperada num Muffin de red velvet.
Mentira. Eu engoli ele inteiro.
Por um segundo, eu quase voltei para o elevador. Eu desceria até o meu carro, daria uma volta, compraria um milk-shake e fingiria que nada aconteceu. Quando eu voltasse, seria como se fosse tudo um pesadelo ruim e distante no meio de uma vida perfeita. Poderíamos ver um filme romântico juntos enquanto comíamos o resto dos muffins. E eu nunca saberia dessa traição.
Mas uma vozinha filha da mãe sussurrou no meu ouvido: Pare de fugir das coisas, Manuela. Pare de fingir que está tudo bem. Pela primeira vez na vida, encare as coisas de frente.
Que momento de merda para ter uma crise de consciência, viu. Puta que me pariu.
No caso, eu desisti de voltar para o elevador e conduzi meu lindo par de saltos altos pelo corredor de tábua corrida, e parei diante da porta do quarto, completamente descrente. Perdi um bom tempo analisando cada reentrância da madeira, cada volta da maçaneta, tomando coragem para entrar naquele aposento, enquanto ignorava solenemente os gemidos cada vez mais altos. Eu sabia que, uma vez que eu virasse aquela maçaneta, não tinha mais como voltar atrás, não tinha mais como fingir que estava tudo bem. Eu ia ter que encarar de frente o que quer que estivesse acontecendo ali.
No entanto nada, nada mesmo, em todos esses meus 27 anos de vida, me preparou adequadamente para a cena que eu estava prestes a presenciar.
Então empurrei a porta do quarto bem devagar, desejando que os barulhos que eu estava ouvindo fossem só a TV, esquecida ligada bem alto em algum canal pornô. Revirei os olhos. Nem tem TV no quarto. Concentra Manuela.
Sei que a primeira coisa que eu vi foi o Eduardo de pé, pelado no meio do quarto, se sacudindo igual uma calopsita, segurando a cabeça de alguém contra a própria cintura, em movimentos bem sugestivos.
Não, Eduardo não é meu marido.
Eduardo é meu cabeleireiro.
João Guilherme, esse sim meu marido, estava ajoelhado diante dele, de costas, com aquela bunda branca meio quadrada apoiada nos calcanhares, e se virou para mim com a mais impagável expressão de susto quando me ouviu abrindo a porta. Algo nojento escorria pelo queixo dele.
Puta que me pariu.
É, Manuela. A gente descobre do que realmente a gente é feito quando a gente descobre
o marido
na nossa cama
transando
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Café com Leite
RomansaUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
