Capítulo 18 - Pedro

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Não consegui dormir.

Fiquei a noite toda encarando o maldito teto.

Não, eu não era de ficar nervoso em véspera de audiência. Não agora que eu fazia dezenas por mês. Na verdade, se me deixassem, eu dormia igual uma pedra.

Mas algo muito muito ruim estava se revirando nas minhas entranhas.

E não venham dizer que é intuição. Eu não acredito em intuição. Eu posso ser de humanas, mas eu fiz direito. Não letras e muito menos filosofia.

Pelo amor de deus, um pouco de respeito.

Porém, eu não estava conseguindo ignorar a violenta comichão no meu estômago. Como se algum bicho revoltando estivesse cavando buracos no meu intestino.

Audiências de família não costumam ser a coisa mais tranquila do mundo. Na verdade, se você não é advogado e acredita que a treta real está no criminal, eu tenho um segredinho pra te contar.

Treta de direito de família é muito pior que homicídio triplamente qualificado.

Manuela não estava falando comigo direito desde o dia que contamos o que o marido dela estava aprontando pelas costas delas.

A mulher estava revoltada. Completamente virada na Jiraya de ódio. Não aceitou carona e voltou pra casa furiosa no seu minicooper, depois que passamos um tempo para prepara-la para a audiência. E fazia dois dias que eu não via sua linda carinha rosnando de ódio para mim.

Eu não queria incomoda-la.

Não quis falar com ela nem mesmo hoje, na véspera da audiência. Cheguei em casa tarde da noite e parei um andar antes do meu, apenas para ficar encarando a porta dela. Mas não quis bater. Ela devia estar tão furiosa que ia tentar tirar minha cabeça fora com os dentes.

O relógio acusava três da manhã. Tic. Tac. Tic. Tac.

Eu já vira casos muito mais cabeludos do que esse. Uma vez um senhor muito distinto, por volta de 60 ou 70 anos, entrou pela porta do meu escritório para me contar que tinha descoberto numa consulta que era estéril desde o nascimento.

O homem tinha cinco filhos e três netos.

Ele ainda não tinha tido coragem de questionar a esposa sobre o verdadeiro pai das pessoas que ele acreditava que eram seus filhos.

Me conta, sinceramente, o que você, como advogado, faria numa situação dessas.

Uma outra vez, a esposa, minha cliente, descobriu no enterro do marido que ele tinha tido dois filhos fora do casamento, cada um com uma amante distinta. Não preciso dizer que ela queria ressuscitar ele só pelo prazer de poder mata-lo novamente.

Esse inventário foi um pesadelo.

Ou seja, o caso de dona Manuela não era nem de longe um dos mais pesados que eu já tinha visto.

No entanto, eu sei muito bem que a fúria que ela estava sentindo no fundo não era contra o Joao Guilherme nem muito menos contra o Eduardo. Era contra ela mesma, por ter se deixado manipular tão facilmente, e por tanto tempo.

Dessa forma, eu a deixei quieta, fermentando seu ódio em paz.

Mas agora eu não conseguia dormir, porra.

Fiquei me revirando novamente pela cama, sem saber exatamente o que fazer.

E o pressentimento ruim continuava.

Vi a madrugada se esvair e o sol surgir, ainda perdido em pensamentos. Me vesti com cuidado, ainda vendo minha imagem refletida no espelho partido, que eu ainda não tinha mandado trocar.

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