O final de semana passou como um bálsamo, uma confusão de carboidratos, clássicos da Disney, moletons e frutas comidas diretamente do pé. Minhas irmãs aguentaram pacientemente minhas lamúrias eternas, mas esconderam meu álbum de casamento (um álbum lindo de couro marfim e letras de metal banhadas a ouro – ia ficar ainda mais lindo no meio da fogueira) e todos os porta retratos com meu ex marido, com medo que eu fizesse uma fogueira pagã no meio da sala.
Eu jamais faria isso. Obviamente eu faria uma fogueira do lado de fora.
Na manhã da segunda feira, o sol nem tinha nascido e minhas irmãs invadiram meu quarto feito duas terroristas caipiras e insensíveis.
- FIONA, ACORDA
Fiona era meu apelido QUANDO EU TINHA SETE ANOS. Infelizmente, o filme do Shrek surgiu nos cinemas bem na época em que as crianças descobriam deliciadas os prazeres proibidos do bullying. Tinha um bom tempo que eu não ouvia esse apelido infeliz (na verdade, ele me acompanhou por boa parte do ensino fundamental, até que eu fosse cursar ensino médio em São Paulo).
-Paula, Sofia, por que é que vocês não vão TOMAR NO RABO SUAS INFELIZES!?
Elas simplesmente fizeram montinho sobre o meu corpo abandonado sobre a cama. Bando de descoupadas.
- Fioninha, vamos dar um passeio de cavalo? Igual fazíamos quando éramos pequenas?
- Ah nem Paula, por que a gente não pode ficar o dia inteiro vendo filmes da Disney? Quem sabe pelo resto da vida?
- Pelo amor de Deus Manuela. Você não tem mais nove anos. As pessoas terminam relacionamentos, mas eventualmente elas seguem em frente.
- NÃAAAO!
Me contorci e coloquei a cabeça sob o travesseiro, tal e qual um avestruz. Mas eu não era páreo para as duas, que arrancaram cruelmente meus cobertores e me estenderam roupas de cavalgada. Horrorosas por sinal. Eu estava começando a sentir abstinência dos meus conjuntinhos da Balmain. E do skincare caríssimo que estava abandonado numa caixa de vidro no banheiro do apartamento em São Paulo.
Ai meu deus minha base fluida skinglow da Dior. Ainda posso sentir o cheiro de perfume caro na Sephora no dia em que comprei.
Um dia mamãe volta para buscar todos vocês.
Enquanto isso, me vesti com aquele look pavoroso, uns culotes meio largos daquela cor de burro quando foge, camiseta de malha e botas de montaria.
No espelho, me encarava de volta uma mendiga de roupas largas e os cabelos loiros arrepiados feito uma palha seca, que eu prendi num coque muito do mal feito. Na fazenda pelo jeito ninguém usava máscara capilar hidratante, pelo amor de deus. Isso aqui era o que, a faixa de gaza agora?! Cadê os direitos humanos fundamentais? Cadê a loja da Sephora?!
- BORA MANUELA!!! PQ VC TA DEMORANDO!!! NÃO PRECISA PASSAR BATOM PRA ANDAR DE CAVALO NAAAAAAO
A voz suave da Paula subiu pelas escadas, sacudindo minhas prateleiras. Rodei os olhos. Eu ia enfiar um batom nela, bem onde o sol não bate.
Nos estábulos, fomos auxiliadas pelo seu Jorge, o marido da Malu, que tinha escovado e selado os cavalos para o passeio. Seu Jorge era simplesmente o ser humano mais gentil do universo, a pele escura contrastando com os cabelos branquinhos, e os olhos que ficavam praticamente fechados quando ele sorria. Ele parecia ter a mesma idade desde que eu era uma criança.
Montamos nos cavalos e seguimos para a trilha já nossa conhecida, que passava por diversos cantos da fazenda, atravessando uma das plantações ate chegar num braço de rio bem calmo e fácil de nadar, no meio de uma florestinha.
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Café com Leite
RomanceUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
