Vocês acertaram. Nesse exato momento eu estava dirigindo em direção ao meu apartamento, num bairro bem menos glamoroso do que o local onde ficava o escritório.
Chovia tanto que um barco seria mais útil do que aquele carrinho.
Estacionei o ridículo carrinho de boneca na minha vaga (que no momento estava vazia pois minha moto obviamente tinha ficado no escritório) e desliguei a ignição. O silêncio só era cortado pelos roncos sibilantes de minha agradável companhia.
Sim. A doida tinha adormecido igual uma boneca morta com a cabeça encostada na janela. Era metade engraçado metade assustador.
Como uma pessoa podia simplesmente apagar desse jeito tendo bebido uma quantidade relativamente baixa de álcool?
Eu ia dar um desconto por que os shots eram realmente agressivos. E também os dois drinks de cortesia que ela tinha bebido igual água. E também por que ela não tinha comido nada.
E principalmente por que ela era aproximadamente do mesmo tamanho de um pinsher toy, então obviamente a bebida devia fazer muito mais estrago.
Mas gente. A pessoa estava praticamente em coma. Eu ate levaria ela para comer algo gorduroso no Mc donnalds, mas seria como tentar alimentar um cadáver.
Hesitei em sair do carro. O ultimo lugar que eu gostaria que Manuela Morales Diniz visse era o meu apartamento, que provavelmente cabia no menor quarto do duplex que ela tinha com o ex marido.
Eu não tinha vergonha do apartamento que eu tinha comprado (para ser bem sincero, ainda estava pagando) com muito suor e esforço, muito pelo contrário. Mas era impossível não se sentir ligeiramente inseguro ao pensar que o vestido (transparente) que ela estava usando provavelmente era mais caro do que a minha prestação do financiamento.
Rodei os olhos para mim mesmo. Eu era uma pessoa batalhadora, que tinha conquistado muito nos últimos anos. Tinha sido escolha minha reinvestir o lucro do escritório no aprimoramento da advocacia, e não em algum apartamento luxuoso e absurdamente caro nos jardins.
O lucro crescia mês a mês, o reconhecimento dos clientes era cada vez mais expressivo, mas eu e Rodrigo ainda tínhamos um longo caminho pela frente.
Nao tínhamos exatamente nascido herdeiros de uma família milionária.
Eu estava sendo ridículo com essa insegurança de subir com aquela menina rica para o meu apartamento.
Mesmo que na pratica ela estivesse completamente falecida, e fosse incapaz de notar qualquer coisa
Ela era só uma menininha rica que eu tinha conhecido há muito tempo atrás, e que não tinha absolutamente nenhuma importância na minha vida.
Por que cargas d'água então eu me sentia tão absurdamente inseguro?
Olhei novamente para o lado, para a criatura em coma, completamente alheia a qualquer dos meus pensamentos. Ela emitia um barulho estranho, algo entre um ronco e um rosnado, e dormia de um jeito meio esquisito, pendurada no cinto de segurança, com o cabelo pingando no vestido branco e no couro caramelo dos bancos.
Quem a olhasse agora teria certeza que eu tinha cometido um assassinato.
A coitada ainda tremia de frio.
Não era como se eu tivesse uma escolha não é mesmo? Eu não podia simplesmente abandonar a criatura à própria sorte.
No caso, isso seria abandono de incapaz. Isso sim seria um crime.
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Café com Leite
RomanceUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
