Eu quase nem via a estrada correr embaixo de mim, tão embaçada que estava por causa das minhas lágrimas.
E, claro, por causa daquela garoa cinza infinita de São Paulo, que nunca dava trégua.
Mais uma vez, num período curto de tempo, lá estava eu fugindo pra fazenda do papai, procurando refúgio naquela casa antiga e enorme.
Paula, do meu lado, estava com uma expressão entre o medo (da minha direção alucinada) e a raiva (da minha resposta grosseira quando eu disse que não queria conversar sobre o assunto).
- Manuela...
Me limitei a fuzilar minha passageira indelicada com o olhar.
- Manuela, eu te conheço desde a época que você cabia na palma da minha mão, e você não vai me intimidar. O que diabos acabou de acontecer?
O olhar dela, entre o preocupado e o questionador, me desarmou até os ossos. Precisei parar no acostamento, pois a torrente de lágrimas que me veio aos olhos foi mais forte que as sete quedas do Iguaçu. Enlacei o volante com os braços e passei a chorar torrencialmente, o nariz remelento acionando a buzina com força. Os soluços rolavam aos borbotões, me fazendo dar pulinhos na cadeira.
Senti Paula me abraçar, delicadamente penteando meus cabelos com as mãos, como quando éramos pequenas, e eu tinha feito alguma coisa errada e pedia para ela não contar para a mamãe (ela guardava segredo, na maioria das vezes. Menos naquela vez que eu quase toquei fogo no celeiro – não tinha muito como esconder a enorme mancha preta que ficou na parede).
Senti minha voz sair em meio às lagrimas, completamente confusa e esquisita, aquela vozinha fina de criança chorosa. Na verdade, nem eu mesma sabia o que estava falando, pra ser bem sincera.
- Ele... advogado... eu não sabia, eu não sabia... ele trabalhava... quando era criança... não lembrava...
Paula tinha cheiro de mãe. É isso. Aquele cheiro que acalma devagar, até parecer que nem tudo é um desastre.
Não era o mesmo cheiro da minha mãe. Mas era parecido.
- Manu, se acalme. Respira. Eu continuo sem entender nada. Mas vai ficar tudo bem. Vamos, deixa que eu dirijo.
Tirei meu rosto enlameado de lágrimas de dentro da buzina e olhei para ela com meus grandes olhos vermelhos.
Ela era uma péssima motorista. Mas eu não tinha muita escolha. Troquei com ela de lugar e a deixei dirigir em direção à fazenda numa velocidade alucinante de 32 Km/h.
- Pronto, toma essa água. Isso. Se acalme, que eu não estou entendendo uma palavra do que você está dizendo.
Olhei para o fundo do copinho, querendo sinceramente me afogar nele.
- Então... digamos que meu advogado de divórcio fez um pouco mais do que só me defender em juízo...
- Mas isso já estava bem óbvio, né. Eu sabia que você devia estar envolvida em algum tipo de confusão amorosa, e estava tentando me esconder.
Paula estava cada vez mais e mais com ares de mãe. Isso porque as únicas criaturas com quem ela lidava eram cavalos. E se aparecesse qualquer homem interessado em ter filhos ela era capaz de assustar ele com chicotadas.
- Continue, querida.
- Mas não é nada disso que você está pensando. Não é como se eu estivesse apaixonada por ele, nada disso. Ele só é bonito. E tem uma risada engraçada. E covinhas...
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Café com Leite
RomanceUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
