Quem foi o imbecil que inventou as motocicletas. Sério. Não entra na minha cabeça.
Certamente, um suicida. Um kamikaze. Uma pessoa sem muito amor à vida.
Desci pelo elevador até a garagem com a bolsa em uma mão e o capacete na outra. Lembrando a todo momento que minha mãe, que deus a tenha em sua infinita sabedoria, sempre dizia: Minha filha, cuidado com os motoqueiros.
Obviamente que no contexto que ela dizia, ela queria me alertar para os perigos de ser assaltada. O clássico dois homens numa moto.
Mas ela nunca imaginou que os conselhos dela seriam tão apropriados tantos anos depois, apesar do contexto tao distinto.
Minha filha, cuidado com os motoqueiros.
Com a voz dela ecoando na minha minúscula cabecinha de ervilha, olhei para a cena que se descortinava na garagem do prédio residencial onde eu no momento residia.
Numa das últimas vagas da garagem subterrânea, meu elegante advogado de divórcio me esperava apoiado contra a enorme moto preta estacionada junto à parede, olhando o relógio com impaciência, as grossas sobrancelhas se unindo em desgosto.
Era uma visão de tirar o folego. O homem tinha o dobro da minha altura, lindo, num terno bem cortado, por cima uma pesada jaqueta de couro de motoqueiro, prestes a me sequestrar na sua moto gigantesca.
E a gente tinha se beijado hoje de manha.
Engoli em seco.
Aquela situaçãozinha bem tranquila não é mesmo Brasil?
- Minha nossa senhora, mas você enrola ein? Mas não se preocupe, nessa belezinha aqui eu sou bem rápido.
- Eu vou chegar viva e inteira no final do caminho, né?!
Ele só deu um sorrisinho com o canto de boca e uma piscadinha.
Mamãe, se a senhora está me ouvindo, me proteja.
- Vem, eu vou subir primeiro e você sobe atrás de mim. Coloque logo esse capacete.
Coloquei meu capacete e fiquei me sentindo a pessoa mais ridícula do planeta, no mínimo um ET de varginha. Ele chegou perto e afivelou as tiaras de segurança embaixo do meu queixo, o calor de seus dedos fazendo cócegas na minha pele. Ele hesitou um segundo e tirou a própria jaqueta de couro e colocou nos meus ombros.
- Pronto. Você precisa mais disso do que eu, ou vai ficar com frio.
A jaqueta pesava mais do que eu. Sem brincadeira.
Mas eu fiquei grata. O tecido grosso ia me proteger da ventania do dia frio que fazia em São Paulo. Apesar de me fazer parecer uma anã vestindo o moletom de um gigante.
Ele subiu no enorme veículo de um golpe, estendendo a mão na minha direção.
Talvez não tenha sido exatamente a melhor ideia do mundo usar sapatos de salto fino.
Peguei na mão dele ocupada demais para sentir a corrente elétrica que desceu feito um raio pela minha frágil espinha dorsal, pois eu estava por demais ocupada tentando me equilibrar no pezinho da moto com um pé, enquanto passava a outra perna para o outro lado.
Ele acelerou e aquela coisa rosnou igual um velociraptor dos filmes do Jurassic Park. E eu gostaria muito de estar brincando, mas não estou. E no segundo que ela começou a se mover, eu rapidamente abracei o peito do motorista. Afinal, não estamos afim de morrer por agora. E nem de cair no chão igual uma jaca podre.
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Café com Leite
Roman d'amourUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
