Capítulo 7 - Manuela

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Merda.

Merda.

Merda.

Eu estava repetindo o palavrão feito um mantra na minha cabeça. Estava parada diante do endereço que estava no cartão que aquele belo babaca tinha me dado no dia anterior.

Por que, você me pergunta? E a resposta é NÃO, não é por que eu vou contrata-lo. Eu jamais faria isso.

Jamais.

Mas era um fato que eu precisava devolver aquela merda de escapulário. Alias, ele pesava mais que um meteorito pendurado no meu pescoço.

Dessa vez, eu estava vestida como a dama que eu realmente era (ou tentava desesperadamente ser). Modéstia a parte, eu estava um arraso. Cabelo moreno despretensiosamente lavado e escovado, vestido branco ate os joelhos e meus lindos scarpins nude da sorte. Arrematando com óculos escuros e maquiagem leve, eu definitivamente parecia uma típica mulher divorciada de sucesso.

No entanto, para o meu desespero, não, eu ainda não tinha um advogado de divórcio. 

Sim, eu tinha passado o dia todo visitando escritórios de advocacia, conversando sobre o meu caso, mostrando o vídeo de segurança da garagem e as evidencias. 

Sim, a maioria me disse que seria um caso complexo, já que havia evidências em vídeo de que eu tinha atropelado ele, e aparentemente ele sofrera uma lesão razoável no braço. 

Mas todos disseram que poderiam me ajudar. O que de alguma forma não me deixou mais calma.

Já era noite quando consegui estacionar meu minicooper diante do endereço no cartão.

Não era na Faria Lima (a meca dos grandes escritórios de advocacia e sede das empresas milionárias de São Paulo), mas também estava longe de ser a cracolândia (como eu no fundo esperava). Subi até o sétimo andar, onde uma porta de madeira clara sustentava uma plaquinha preta com escritos em branco e prata: Barros & Garcia Advogados.

Respirei fundo e me adiantei para o interfone, rodando os olhos para o meu nervosismo ridículo. Pelo amor de deus Manuela, você só vai devolver um pertence, deixe de ser doida. E faça o favor de não fazer nada particularmente imbecil, para variar.

Uma secretária baixinha com cara de pouquíssimos amigos abriu a porta no primeiro toque. Tinha os cabelos claros presos num coque apertadíssimo, e um óculos de meia lua lhe dava um ar eficiente.

- Pois não? A senhora tem horário com qual dos doutores?

- Eu não tenho horário marcado, mas gostaria de falar com o Sr. Pedro, se possível.

- O Doutor Barros está ocupado no momento. Você pode ligar e marcar um horário, quem sabe, como o resto das pessoas normais.

- Pode deixar ela entrar, Elvira, muito obrigada.

Elvira revirou os olhos e bufou baixinho, mas abriu a porta me dando passagem.

Eu não estava psicologicamente preparada para a visão que me atingiu feito um caminhão em alta velocidade.

Pedro estava encostado no umbral da porta de sua sala, impecável em um terno azul marinho chiquérrimo (eu definitivamente chutaria Armani), camisa branca e gravata azul claro, cabelo todo para trás. Infelizmente, aquele sorriso presunçoso de canto de boca estragava todo o conjunto, já que ele estava obviamente rindo de mim.

Babaca.

- Por aqui, senhora Manuela. Sinta-se em casa.

Revirei os olhos, mas atravessei a sala de espera e entrei em seu escritório sem retrucar.

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