Puta.
Que.
Pariu.
Pedro Augusto Barros, que cagada sensacional foi essa que você fez?!
Encarei a merda da xícara estilhaçada no chão em que eu estava sentado, o café manchando a barra dos meus shorts. Eu tive vontade de pegar um dos cacos na mão e apertar até romper minha pele e deixar o sangue escorrer.
Por muito pouco não joguei a mesa toda para cima. O que me impediu foi pensar que eu não tinha um monte de criados igual a pinsherzinha era acostumada, e teria que arrumar tudo sozinho de novo.
A pinsherzinha.
Por que DIABOS eu tinha feito aquilo.
Do nada.
A gente estava fucking tomando café da manhã. Que porra. Quem beija a boca alheia no meio do café da manha!?
Merda. Mil vezes merda. Dez milhões de vezes merda.
Eu nunca tinha lapsos de julgamento. Eu era um advogado que tinha construído a carreira do zero, eu era filho da uma família pobre que teve que lutar muito para chegar onde cheguei. Eu lidava com famílias problemáticas todos os dias no trabalho, eu via que relacionamentos amorosos não passavam de grandes desculpas para juntar dinheiro, e que raramente duravam mais do que alguns anos, quando muito.
Eu não tinha lapsos de julgamento.
Nunca.
Eu tinha foco. Sabia o que era certo, o que tinha que fazer, exatamente o que eu podia sacrificar. Meus objetivos sendo riscados um a um numa lista de prioridades: advocacia, mestrado, doutorado, nova sede, financiar apartamento, contabilidade positiva, lucros. Ainda faltava muita coisa. Mas eu sabia exatamente o que eu precisava fazer para chegar lá.
Eu sabia exatamente o que eu precisava fazer.
Eu não perdia o foco, em nenhuma circusntancia.
Tirando nesta maldita manha, quando olhei os olhos dela, e eles tinham exatamente o mesmo tom e o mesmo calor do café com leite caramelado que eu tinha feito pra ela.
Ela tinha também exatamente o mesmo cheiro doce e suave de casa aconchegante na penumbra, logo antes do sol nascer.
Ela tinha exatamente os mesmos olhos inocentes de quando tinha dez anos. A mesma aura de menina sonhadora, que não entende muito da vida real, que não presta atenção ao que acontece ao seu redor, simplesmente por que não precisa.
Eu era o absoluto avesso dela em tudo. Eu sabia as dificuldades da vida, eu não tinha um pai rico por trás de tudo. Eu tinha conquistado cada coisinha miserável em minha vida com sangue e suor.
Então o que diabos eu tinha na cabeça?!
Beijar Manuela Morales Diniz!? Colocar tudo a perder?!
No meio do café da manha ainda por cima?!
Tive muita raiva de mim mesmo. O mesmo ódio que eu tinha tido no segundo que eu pisei naquela maldita igreja cinco anos atrás, apenas para vê-la se casar com aquele maldito imbecil. E naquele dia eu jurei que não ia mais fazer coisas idiotas assim por causa dela.
Obviamente eu fora incapaz de cumprir minha própria promessa.
Retardado.
Limpei a bagunça de cacos e café do chão e tirei o assunto da cabeça, já que estava começando a ficar atrasado para o trabalho. Não era hora de perder tempo com besteiras.
Tomei um banho longo, frio e demorado para tentar resfriar a cabeça. Eu tinha um milhão de coisas para resolver no escritório, como em qualquer dia normal de um advogado. Eu definitivamente não tinha tempo para perder com besteiras.
Coloquei meu melhor terno e sapatos devidamente engraxados, por que hoje era dia de audiência. Deus sabe a bagunça que é uma audiência de direito de família. Era importante estar no meu melhor.
Infelizmente eu não me sentia no meu melhor. Vê-la sair correndo assustada daquela forma tinha me deixado desestabilizado. Eu entendo que tinha pego a coitada de surpresa, afinal não fazia muito tempo que ela tinha pego o marido com a boca na botija, e eu era seu advogado de divórcio.
Nada mais.
Mas mesmo assim, tinha sido um golpe profundo no meu orgulho pensar que ela não tinha gostado.
Eu nunca mais ia beijar aquela boca novamente.
(NOTA ENXERIDA DA AUTORA: DESSA ÁGUA NÃO BEBEREIS).
Mas o gosto suave de seus lábios era exatamente como eu sempre tinha imaginado por tantos anos.
Inferno.
Olhei minha imagem no espelho. Perfeito em cada detalhe, exatamente como um advogado de sucesso deveria parecer. Relógio fino (não era nenhum rolex, mas era cromado e elegante o suficiente para parecer um, pelo menos a olhos menos treinados), abotoaduras, terno bem cortado, gravata de seda. Minha pele de fato era ligeiramente mais escura do que seria considerado adequado para os espaços conservadores do mundo jurídico, mas eu tinha lutado duramente pelo meu espaço, e as pessoas fingiam que não eram preceituosas quando você tinha sucesso e confiança o suficiente.
Eu tinha tudo o que eu queria não tinha?
E no entanto, mesmo depois de um banho demorado, o cheiro dela ainda estava impregnado na minha pele feito uma peste.
Dei um soco bem no meio do espelho, bem onde me encaravam meus olhos. Meu punho o fez trincar no formato de uma enorme teia de aranha, com pedaços caindo pelo chão do meu quarto.
Ah que coisa boa não é mesmo.
Como sempre que eu me encontrava perto dela, mesmo que fosse só de sua mera lembrança ao longo desses anos, eu me sentia insuficiente, não importando o que eu fizesse, o quanto eu estudasse ou enriquecesse, o quanto eu fosse culto ou bem sucedido. Eu nunca me sentiria bom o suficiente para a princesinha do café.
A frustação atingiu o espelho com mais força do que meus punhos. Meu reflexo na superfície trincada revelava uma pessoa impaciente com a frustação de seus pensamentos.
Me virei de súbito, catando com cuidado os cacos que tinham caído no chão.
Mais uma coisinha para colocar na lista de coisas para não fazer.
Até agora constavam: 1. Não beijar a pinsherzinha; 2. Não quebrar as coisas que iam custar tempo e dinheiro para ser consertadas só por causa de um acesso de raiva.
Acho que estávamos indo bem.
Bom, não tinha muito o que fazer além de fingir que nada disso tinha acontecido. Eu certamente não iria puxar o assunto com ela.
Tinha sido um erro ser gentil e feito café da manha. Além do mais, era zero a minha cara. Eu não fazia café da manha nem para mim mesmo. Eu não sei por que tinha acordado com essa ideia estúpida. Mas não ia se repetir.
Não tinha muito segredo, era só tratar como uma simples cliente daqui para frente e com certeza tudo ia dar certo.
Não é?
O relógio já acusava 8:40. Eu já estava bem atrasado. Rodrigo costumava se irritar com atrasos. E eu era pontual para cacete.
Lembrei com prazer que tinha voltado de moto na noite anterior, então poderia ter meu momento de liberdade pelas ruas.
Mas me lembrei que o minicooper da bonita tinha ficado na minha vaga do escritório.
O que significa que ela ia precisar de uma carona. Então peguei o capacete reserva no armário.
Ou seja, apenas uma carona de moto. E depois voltamos à frieza casual de uma relação advogado-cliente.
Pelo bem da minha sanidade.
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Café com Leite
RomanceUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
