Quem olhasse para a Manuela nesse momento viria em seus olhos algo terrivelmente parecido com terror. Pânico puro e líquido.
Um esquilo pequenininho e aterrorizado prestes a desaparecer.
Delicadamente me aproximei dela antes que ela desse um fim nas chaves (eu vi seus olhinhos rápidos checando a fresta que dava para o poço do elevador) e me direcionei para a porta.
De fato, havia vozes.
- Pedro, vamos embora, dá para voltar outro dia...
Eu ouvi sua vozinha fina quase desaparecer na garganta, implorando para ir embora.
Eu até iria embora.
Mas eu estava com muita raiva.
Dela.
Era o apartamento dela, caramba. Por que diabos ela estava com medo!? Era para ela chegar chutando a porta e atirando para cima com uma porra de uma bazuca.
Eu sabia que ela tinha essa força. Não me perguntem como. Mas eu sabia.
Ela só tinha sido silenciada.
Felizmente, eu estava ali para guia-la.
Terminei de girar a chave dentro da fechadura e empurrei a maçaneta, ouvindo o engasgo de terror que ela deu por baixo da respiração. Era quase cômico.
A porta se abriu revelando uma agradável reunião. Reconheci claramente João Guilherme ao fundo. Eu o tinha visto pela última vez cinco anos antes. Mas não tinha esquecido dele.
Ele de fato estava com o braço esquerdo engessado. Eu tive que rir.
Mas havia mais gente. Umas cinco pessoas estavam reunidas em volta de uma mesinha de centro conversando animadamente, já levemente embriagadas. Havia vinho, champanhe e queijos refinados sobre a mesa.
Um deles, sentado de forma íntima perto de João Guilherme, parecia ser o famigerado cabeleleilo leilo que tinha sido o pivô da traição.
Assim que a porta se abriu, reinou um silêncio mortal. Daqueles profundamente constrangedores. A única coisa que se ouvia era a música tocando ao fundo, uma música alegre do Abba que em nada combinava com a ocasião.
Todos os olhares se convergiram na direção de Manuela, que parecia prestes a vomitar no tapete da entrada. Dava para ver toda a cor indo embora da sua face, e o oxigênio fugindo de seu cérebro. Ela estava prestes a implodir.
Reaja Manuela!
Cinco segundos dolorosos se passaram até que João Guilherme decidisse se levantar, sorrindo alegremente com uma taça na mão.
- Meu amor, que surpresa! Chegou bem na hora.
Ele atravessou a sala em poucos passos e beijou Manuela nos lábios.
A coitada estava petrificada.
- Vamos entrando. Traga seu amigo. Eu estava com saudade, amor, não sabia que você voltava hoje.
Cruzei os braços e olhei para ela.
Por mim eu poderia dar um soco na cara dele. Joga-lo pela janela. Enforca-lo com minhas mãos nuas. Cortar seu pescoço com um pedaço de garrafa de vidro. Tortura-lo lentamente com uma faca de serra.
Mas eu não faria absolutamente nada. Já estava mais do que na hora da princesa se manifestar por conta própria. Eu mesmo não ia mover um dedinho mindinho.
- João Guilherme, por favor...
Ela disse num fiozinho de voz, mas ele nem ouviu.
- O que foi amor? Sente logo aqui, nos conte como foi seu fim de semana na fazendinha do papai...
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Café com Leite
RomantikUma mulher traída precisa voltar para a fazenda do pai para não desmoronar. Ela só não imaginava que era por lá mesmo que ela ia encontrar exatamente o advogado de divórcio que estava precisando.
