Capítulo 14 - Manuela

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Eu acordei no dia seguinte no meu novo apartamento para descobrir uma coisa simplesmente horrível.

Na verdade, era um crime sangrento. Um crime sangrento contra a humanidade.

Tinha um saiote de crochê no meu bujão de gás.

Eu jamais imaginei que eu seria o tipo de pessoa que usa capinha de crochê no bujão de gás.

Isso é um sacrilégio.

Ainda faltava um bom tempo pro meu aniversario de 97 anos.

Revirei os olhos enquanto cozinhava meu próprio alimento para não morrer de fome.

Não me chamem de mimada. Mas eu tive que assistir um vídeo no youtube sobre como acender um fogão a gás.

Tá bom, podem me chamar de mimada.

Minha geladeira estava muito parecida com a de um homem solteiro: uma caixa de ovos, um iogurte daquele de garrafa sabor de ameixa, uma sacola de pao de forma.

Poise. Não tinha nem geleia premium de framboesa.

Você realmente tomou café da manhã se não comeu brioche com geleia premium de framboesa?

Eu acho que não.

Mas eu estava com fome demais para chamar um ifood. E perdida demais para ir até a padaria mais próxima.

Deus sabe que se eu tentasse sair sozinha e me perdesse era possível que eu nunca mais fosse achada. Iam colocar minha cara nos anúncios do linha direta.

Não. Era melhor ir aos poucos.

Então meu café da manha foi pão com ovo mexido. E iogurte de ameixa bebido diretamente da garrafa.

Iogurte de ameixa tem gosto de depressão. Se depressão tivesse um gosto, definitivamente era de iogurte de ameixa.

Tinha umas xícaras natalinas esquecidas que eu sinceramente não tive coragem de usar. Era aquelas xícaras gravadas com fotos que você manda fazer em gráfica quando você quer dar um presente brega para o namorado quando você tem 17 anos.

Fiz o sinal da cruz.

O que eu estava fazendo da minha vida, senhor?

Olhei o relógio de parede com gravura de gatinhos. Eram 6:57 da manha.

Olha puta que me pariu viu, eu estava até ficando com fuso horário de velho. Dormir antes das nove, acordar antes das sete. Daqui a pouco eu estaria arrastando o chinelo pelo apartamento, reclamando dos jovens conversando nos andares de baixo e vendo reprise do show do Roberto Carlos.

Reprise.

Do show do Roberto Carlos.

O que eu estava fazendo da minha vida, senhor!?

Primeiro de tudo. Eu precisava de um emprego.

Sim. Eu tinha apagado o instagram. Definitivamente a vida de blogueira de moda não me fazia bem. Quem eu ia influenciar se a minha própria vida estava uma grande bagunça!?

E eu não ia viver só dos dividendos da minha parte da fazenda e dos negócios com marcas de café. Eu não vou mentir e dizer que era pouco dinheiro. Por que não era.

Sinceramente, era muito mais do que eu precisava para viver confortavelmente pelo resto da vida.

Mas se essa confusão tinha servido para alguma coisa, era para me dar conta que eu precisava fazer algo útil da minha vida. Como uma adulta.

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