Capítulo 24 - Manuela

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Aparentemente eu precisei de bem mais do que dez minutos para me arrumar.

Dar dez minutos para uma mulher ficar apresentável não é apenas surreal, é desumano. Certamente tem algo sobre isso na Constituição Federal.

Mas gente. Eu precisava de um banho, com direito a lavar o cabelo, escovar os dentes, rebocar minimamente a face, colocar uma roupa limpa, desodorante e perfume da Jo Malone.

E ainda teve esse negócio de "separar uma muda de roupa".

Como assim? Não tinha como ser mais genérico, cacete!??

Nós vamos escalar uma montanha? Andar de cavalo? Ir à ópera ou ao ballet? Nadar numa lagoa escondida? Campos do Jordão? Salvador-Bahia? Correr no Ibirapuera? Cachoeira escondidas em São Bernardo do Campo? Comer um dogão na 25 de março? Bate e volta no Fasano – Rio de Janeiro? Tarde agradável comendo brioches no palácio Tangará?

Cada uma dessas ocasiões exigia uma indumentária completamente distinta. Inclusive para cada uma delas eu faria uma mala com diversas opções de look e sapatos combinado em paletas de cores distintas, e não uma "muda de roupa".

Eu não era mulher de sair por aí com "muda de roupa".

Mas eu também não era mulher de sair transando por aí com meu advogado, dormindo no quarto dele na primeira noite.

Mas eu já tinha extrapolado em muito o prazo exíguo que me fora dado por meu querido advogado, então peguei uma mochila e meti escovas de dentes e um macacão gracinha que me deixava informal sem parecer uma mendiga usando a camiseta do ser humano com quem tinha dormido (exatamente como eu estava no momento). Tomei um banho, sequei o cabelo e fiz uma intervenção de emergência na face (não ia dar tempo para fazer o procedimento cirúrgico completo na face, mas uma intervenção de emergência era mais do que necessária), coloquei uma roupa qualquer e corri para a porta, tendo a forte impressão de que meu querido vizinho de cima estava prestes a invadir meu humilde apartamento e me arrancar de lá arrastada.

- Manuela Morales Diniz, você demorou 37 minutos. Eu disse que você tinha exatamente dez.

- Trinta e sete minutos é um tempo perfeitamente aceitável para uma mulher ficar pronta, dr. Pedro. Alias qualquer coisa inferior a duas horas é um tempo muito curto para uma mulher ficar pronta.

Ele revirou sem paciência os olhos muito escuros.

- Ainda bem que você não é advogada. Advogados que perdem o prazo se ferram.

- Fica tranquilo que eu nunca seria chata o suficiente a ponto de me tornar advogada. O nível de chatice para se tornar um advogado é muito superior ao nível de chatice normal tolerado pela sociedade.

- Engraçado... ontem a noite você estava numa alegria só, quicando no ponto alto da minha chatice.

Em choque pelo comentário absolutamente desnecessário, senti minha cara assumir um tom vibrante de vermelho.

Filho da puta.

Como a dama que sou, não respondi e me dirigi em silêncio para chamar o elevador, enquanto fervia de ódio de sua risada atrás de mim.

- Vamos pinsherzinha, hora de colocar o pé na estrada.

Bastante desconfiada, mas sem nenhuma absolutamente alternativa a não ser acatar as ideias misteriosas do meu advogado, subi na moto atrás dele, completamente derrotada. Ainda tentei convencê-lo a viajar no conforto do meu minicooper, mas foi em vão.

E foi assim que ele tomou as ruas agitadas da cidade que por enquanto era minha casa, costurando entre os carros com aquela moto enorme e barulhenta. Quando já tínhamos saído do centro de São Paulo, ele estacionou diante de uma grande padaria, onde eu me atolei alegremente de pão de queijo e bomba de chocolate.

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