Durante o café da manhã, recebi uma ligação de Antony, queria marcar para almoçarmos e conversarmos. Combinamos de nos encontrar em um restaurante ali perto, a minha preocupação era maior que o meu sentimento de orgulho ferido. A verdade é que esse orgulho já tinha ido embora há muito tempo, de certa forma hoje eu já não o odiava como antes, apenas não tinha nenhum apreço.
No horário marcado encontrei com ele no restaurante, ele já havia chegado estava sentado consumindo uma bebida que não dava para identificar da distância que eu estava. Me aproximei e sentei na cadeira a sua frente, ele me estendeu a mão e eu o cumprimentei apetando a sua.
- Sarah me falou que queria conversar comigo.
- Sim... – Digo enquanto olho no cardápio. – Vou só pedir alguma coisa, para conversarmos com calma.
Fiz o meu pedido para o garçom.
- Antony, Sarah me contou que vocês começaram a conversar.
- Eu contei a verdade para ela, precisava fazer isso. Sei que a magoei profundamente, isso me deixa completamente destruído.
- Antony a verdade é que pouco me importa o seu sentimento, estou aqui sendo muito sincero. Não é novidade que não tenho apreço por você e que dificilmente nós teríamos qualquer dialogo se não fosse por Sarah.
- Eu sei John, sei que estraguei a nossa amizade.
- Não é só isso, nunca concordei com a sua postura, não só com Sarah e por várias vezes deixei isso muito claro. Eu posso querer acreditar que tenha mudado, que talvez tudo isso tenha feito você repensar suas atitudes, ainda assim tenho as minhas dúvidas.
- John, eu sempre fui um canalha, errei muito. Principalmente com a mulher que eu sempre amei. Me deixei dominar pelo ego e o orgulho, saber que Sarah teria um filho seu, me corroeu, eu não tinha nenhuma estrutura para isso. Fui a pior pessoa, egoísta, cruel, abandonei a mulher da minha vida quando ela mais precisou de apoio e amor. Só me dei conta disso tudo quando vi que podia perde-la para sempre, naquele hospital. Me dei conta de toda a crueldade que fiz e me envergonho amargamente. Naquele dia você abriu meus olhos, eu sabia que não tinha direito nenhum de atrapalhar a vida dela e a de vocês. Imaginei que ela seria feliz ao seu lado.
- Nós fomos e somos muitos felizes, como pais de Cecília e amigos.
- Eu sei, quando a procurei eu tinha apenas a intenção de contar a verdade e me desculpar, ela me contou que vocês nunca estiveram juntos amorosamente, apenas como pais e que se tornaram grandes amigos. Vi o quanto ela é grata por tudo que você fez.
- Fiz o mínimo que deveria ser feito. Essa é a questão, não exalte as minhas atitudes, elas são mínimas, são básicas. Ela esperava a minha filha, é a mãe dela. Ela passou por uma gravidez, mudou seu corpo, teve mal-estar e abandou, por quase dois anos, todos os seus sonhos, planos e a própria vida. Parece que eu fiz algo extraordinário, mas não fiz, eu a dei um lugar seguro e confortável para morar, apenas. Dei alimento, acolhimento, respeito e confiança, foi só. Não faça isso parecer muito na sua cabeça, nem na dela.
- A maioria, como eu, não teria feito nada. – Ele abaixa a cabeça com vergonha.
- O fato de você ter lavado as mãos, como outros milhares de homens, não me torna um super-herói. Eu nunca fui perfeito, fui um namorado ruim várias vezes, inseguro e possessivo. No ápice do ódio julguei, até a empurrei, a tratei com violência. Algo que eu sempre repudiei veementemente. Eu cresci vendo mulheres sendo machucadas e jurei para mim mesmo que nunca faria isso, infelizmente eu fiz. Me culpei, me torturei por isso. É nisso que eu quero chegar, nós temos escolhas o tempo todo. Eu escolhi fazer diferente, escolhi amar o bebê sem nem saber se seria meu filho. Quando Sarah chegou na minha casa, mesmo depois ter sido ignorada várias vezes por ligação, ela veio até mim desesperada, tinha medo no seu olhar, completamente devastada. – Meus olhos encaravam Antony, que estava emocionado, seus olhos estavam cheios de água.
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As marcas do medo.
RomanceJohn é um jovem médico que há anos luta contra as crises de pânico. Sua vida sofre diversas reviravoltas levando-o a ficar cara a cara com os seus traumas, deixando ainda mais intensa as suas crises e seus medos. O dinheiro não era capaz de lhe comp...
