Capítulo 36

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Encontrei Callie no parque como sempre, eu teria plantão logo depois, e me exercitar antes me deixava mais disposto. Depois da corrida no parque passamos em uma cafeteria ali próximo, a mesma que sempre íamos quando não tínhamos muito tempo. Eu pedi um sanduiche e um café, ela pediu uma panqueca e um chocolate quente, ficamos poucos minutos conversando, enquanto terminávamos a refeição. E mais um vez o assunto foi Emily, esse era um dos assuntos favoritos dela e ultimamente ela estava focada em me fazer esquecer a minha ex. Fomos andando para o meu apartamento, pois lhe daria uma carona, já que eu iria trabalhar logo depois, poderia deixá-la em casa.

O caminho sempre me levava a passar pelo prédio de Emily e era inevitável não olhar, as vezes até cumprimentava o porteiro. Quando passei pelo portão tive uma impressão estranha, parei, eu conhecia aquele cabelo, aquele corpo, mas rapidamente a mulher atravessou a portaria, sem olhar para trás, fiquei em choque.

- Viu um fantasma? – Callie me olhava assustada.

- Acho que sim. – Digo voltando a andar. – Foi só uma sensação estranha.

Não era a primeira vez que tinha a impressão de vê-la, por um tempo isso era muito comum, meus olhos fitavam tudo que pudesse parecer com ela, já esbarrei em mulheres e até corri atrás, até me dar conta que estava apenas sendo idiota. Talvez a minha conversa com Callie tenha me impulsionado a pensar nela, acabávamos falando muito nela, por não entender o motivo de eu não me envolver emocionalmente com ninguém há muito tempo. Ela tinha sido a única desde que Emily foi embora e já tinha vários meses que não rolava nada entre nós, a gravidez nos tornou ainda mais amigos. 

Eu estava no patamar de amigo que segura o cabelo enquanto ela vomita e ajuda a escolher roupinhas de bebê. Tive alguns encontros casuais dos quais ela e Adam me empurravam, quando acontecia a relação sexual eu me afastava depois, explicava que não estava disposto a viver nada além disso.

Depois que a deixei em sua casa, voltei para o apartamento para me preparar para o plantão. Enquanto me arrumava meu pensamento estava em Emily, era cruel demais reviver tudo, odiava que a qualquer sinal meu coração reagisse imediatamente se enchendo de esperança. O que mais doía era a ideia que um dia ela poderia voltar e que poderia vê-la pela rua seguindo sua vida, no apartamento dela que parecia tão nosso, dividindo-o com outro. Isso era torturante. Eu me perguntava todo se eu seria capaz vê-la seguir sua vida sem mim de tão perto? Acabaria fugindo de tudo de novo como fiz com Sarah? Era muito provável.

O plantão estava um pouco agitado pela mudança dos profissionais, esse início era sempre agitado. Avaliei os pacientes, passei em cada quarto, cada enfermaria, a situação estava sob controle na maioria dos casos. Passei o dia todo andando pelo hospital, entrando e saindo da emergência, quando o ritmo acalmou já era noite, o relógio marcava 22:00, a fome começou a aparecer e lembrei que quase não havia comido, fui até o refeitório do hospital comprar algo.

Fui até o balcão, pedi um sanduiche e um suco de laranja, uma das atendentes rapidamente me deu o pedido, ela era sempre muito gentil comigo e eu tentava ser o mais educado que eu conseguia. Peguei o lanche e atravessei o ambiente, tinha algumas mesas ocupadas, alguns colegas conhecidos, eu conversava com todos, mas sempre preferia comer em silêncio, depois de muitos anos fingindo durantes as refeições me fizeram criar uma aversão a esse tipo de contato social. As pessoas começaram a parar de me chamar depois de muitas negativas da minha parte, ficar sozinho era um habito difícil de mudar. Sentei em uma das mesas vazia, coloquei o fone de ouvindo e comi enquanto ouvia as minhas músicas de costume, sem olhar muito ao meu redor.

- Ainda come sozinho? – Eu não quis acreditar na voz que estava ouvindo, estava um pouco longe por conta da música no fone, mas eu reconhecia aquela voz em qualquer circunstância, levantei meu rosto completamente incrédulo.

As marcas do medo.Onde histórias criam vida. Descubra agora