Em tão pouco tempo eu tinha me apegado ao apartamento, quando aluguei me imaginei ali por anos, mas a minha vida era realmente muito dúbia, nada era fixo nem determinado, tudo podia mudar completamente da noite para o dia. Estava finalizando agora mais um ciclo e esse era muito difícil, aquele apartamento tinha um pouco de Emily e talvez por isso eu demorei tanto para procurar outro, mesmo sabendo que esse dia chegaria. Me apeguei a ideia de ainda ter um pouquinho dela, a cada dia que passava ela ia ficando mais distante de mim.
A esperança de ainda a ter comigo ia dando lugar a saudade, uma saudade muito dolorosa, eu ainda via nossas fotos todos os dias, uma parte de mim tinha medo de esquecer seu rosto, seu sorriso, mesmo que a outra insistisse que essa era a melhor solução para a dor que fazia morada no meu coração. Era uma guerra difícil. Quando acabamos a mudança, demorei um pouco para conseguir entregar a chave, voltei lá sozinho e fiquei no silêncio, imaginei diversas vezes ela entrando por aquela porta, delicada como ela sempre foi, ao me ver ela abria um sorriso, viria na minha direção e pularia no meu abraço, eu cheiraria seu cabelo e a beijaria, ela diria que me amava e que estava com saudade.
Eu fiquei ali revivendo essa cena várias vezes, em todas elas eu a levava para o quarto e nos amávamos. No fim de todas as minhas imaginações meus olhos cheios de água esvaziavam, meu coração queria de alguma forma acreditar que era possível, mas meu cérebro sabia que esse dia podia nunca chegar e tudo que vivemos foi um amor rápido e avassalador, que um dia eu contaria para meu filho sobre ter um amor impossível. Pensei em minha mãe e Leone, talvez fosse de família o azar no amor.
O apartamento de Leone era bem espaçoso, Sarah ficou em um dos quartos e combinamos e arrumar as coisinhas do bebê lá. Quando o bebê viesse eu daria um jeito de dormir com eles. Os quartos separados ajudariam quando eu chegasse de plantão a não atrapalhar o sono deles. Sarah estava no sétimo mês, a barriga tinha crescido muito na última semana, estava ficando menos disposta, sua pressão arterial estava ficando mais elevada, ainda que dentro do limite, o médico nos tranquilizou, o bebê estava crescendo como deveria. Ele começou a reconhecer a minha voz, quando eu cantava perto da barriga o chute vinha forte, nos fazendo rir.
Com os dias de folga por causa da mão aproveitamos para iniciar as compras do quarto e enxoval, fomos no shopping e escolhemos o berço, cômoda, banheira, roupinhas e tudo que achávamos que íamos precisar, Sarah escolheu as coisas na cor amarela já que só saberíamos o sexo quando nascesse. Leone permitiu que pitássemos o quarto, na verdade ele mesmo sugeriu, pois, o tom era escuro e ele acreditava que podia irritar o bebê.
Tiramos o dia só para arrumar o quarto, ele estava me ajudando com a pintura das paredes, escolhemos a cor branca para todo o quarto e a parede do berço amarela, chegamos à conclusão que não éramos bons pintores.
- Como vai ser quando ele tiver aqui? – Me peguei pensando alto.
- Não sei meu filho, acho que ele vai ser muito mimado. – Ele sorri.
- Obrigado por nos receber.
- Filho, essa casa é sua. Na verdade, eu tenho que agradecer por vocês terem vindo, estou há muitos anos nessa casa e ela nunca esteve tão alegre. E agora vou poder participar da sua vida como sempre quis. – Ele me abraça e eu retribuo.
Montamos os móveis e o quarto ficou pronto, era incrível como a sensação de imaginar ele ali, de alguma forma eu estava começando a sentir amor nessas pequenas coisas, quando Sarah viu tudo pronto ela se emocionou, eu a abracei e beijei a barriga, Leone tirou uma foto nossa do lado do berço.
Durante o jantar conversamos sobre o hospital e as notícias do dia, Sarah estava cansada, recolheu-se cedo. Eu e Leone ficamos na sala, escolhemos um filme e fizemos pipoca, o filme era de comédia, era bom passar esse momento com ele, tínhamos muita afinidade. Na hora que nos recolhemos, vamos juntos para o quarto, ao chegar na minha porta ele me dá uma espécie de sinalizador, parecia um celular, mas tinha um botão de emergência.
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As marcas do medo.
CintaJohn é um jovem médico que há anos luta contra as crises de pânico. Sua vida sofre diversas reviravoltas levando-o a ficar cara a cara com os seus traumas, deixando ainda mais intensa as suas crises e seus medos. O dinheiro não era capaz de lhe comp...
