Capítulo último

46 4 3
                                        

A luz do sol entrava pela janela do quarto, era a tarde de sábado de uma primavera, estava olhando para fora da janela, o dia estava lindo, o céu azul e o jardim cheio de flores rosas e vermelhas, o ambiente estava alegre e harmônico, algumas pessoas estavam andando por ali, paravam e acenavam quando me notavam, era um dia agitado. Estava preso aos meus pensamentos quando fui transportado pelas leves batidas na porta do quarto, ouço a maçaneta se movimentar.

- Está quase na hora. – Era Leone, vejo vindo até mim.

Me viro para ele e dou um sorriso, seria um dia para guardar eternamente em minha memória, não podia negar que estava completamente tomado pelo nervoso.

- Ela vai estar lá né? – Digo nitidamente tenso.

Ele se aproxima mais e me guia até próximo ao espelho, arruma o meu smoking e desfaz o nó da gravata que eu tinha feito.

- Nunca fui bom com gravatas. – Me justifico.

Leone refaz o nó com muita maestria, rapidamente ele sai da minha frente e aponta para o espelho. E eu me deparo com a minha própria imagem, o smoking azul marinho que caíra muito bem, o cabelo estava bem arrumado, a barba aparada e o nó da gravata perfeitamente colocado.

- Ela sempre estrará lá. Por você, para você. – Ele diz me envolvendo em um abraço.

Ao longo do ano a ficha foi caindo para mim e para Leone sobre o nosso atual parentesco, meu verdadeiro pai. Estávamos no habituando com os novos rótulos, principalmente para mim, ele continuava me tratando como filho como fazia desde sempre, o meu sentimento era muito maior do que qualquer nome que poderia atribuí-lo. Às vezes eu o chamava de pai sem perceber e via a felicidade nos seus olhos.

- Vamos fazer isso juntos? – Eu disse ainda no abraço.

Essa frase se tornou nosso bordão, as vezes usávamos com coisas clichês como lavar a louça ou comer a caixa inteira de pizza. Jogávamos vídeo games nas horas vagas e ele era muito melhor que eu, minha prática era praticamente zero. Passávamos muito tempo juntos, estudávamos e trabalhávamos o que, também, deixava evidente a minha dificuldade no convívio e na afetividade, mas ele era muito paciente e nos meus momentos de frustração, ele conseguia reverter a situação com um abraço apertado, as vezes eu estranhava e me irritava, mas acabava cedendo. 

Quem resiste a uma porção de amor?

Volto a olhar pela janela, aquele jardim cheio, nos mudamos alguns meses depois do ocorrido, viemos para uma cidade menor, mais calma e longe de curiosos, com o dinheiro da herança comprei alguns terrenos juntos e fizemos três casas com um jardim compartilhado, espaço de sobra para Cecília brincar com os futuros irmãos. Ela estava enorme e muito esperta, tinha livre acesso a todas as casas. Sarah estava com o Antony e juntos decidiram fazer tratamento para engravidarem, com a ajuda da FIV (Fertilização In vitro) eles acabaram de descobri que estavam esperando um bebê.

Abrimos uma clínica, Emily e Leone estava atendendo, Emily em pouco tempo já tinha uma boa fama pela cidade, aumentando cada dia mais o seu número de pacientes. Ela começou a se dedicar a área acadêmica, passou em uma vaga muito concorrida para ser orientadora de novos obstetras. Ela estava adorando ser professora, seu nome só se destacava na área e era sempre chamada para fazer palestras. Preciso falar que ela é o meu maior orgulho? Sim, ela é. E vê-la crescer e fazer seu trabalho tão bem feito me anima a querer ser como ela. Ela faz a diferença na vida das suas pacientes e eu queria fazer na dos meus. Ela me poiou na decisão de voltar a me dedicar a residência, mudei a minha área de atuação e escolhi me especializar em psiquiatria, seria uma forma de consegui ajudar outras pessoas com algo que eu vivenciava dentro de mim. Uma grande parte do dinheiro destinei a alguns lares, orfanatos e ONG's que ajudavam na educação de crianças órfãs.

As marcas do medo.Onde histórias criam vida. Descubra agora