Um trato com o demônio

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    Minha consciência pesava? Tanto que eu não conseguia dormir. Nunca tinha roubado antes na vida. Mas situações desesperadas pedem medidas mais desesperadas ainda.

    Fui para o colégio, fingindo que nada tinha acontecido. Rafa ainda não tinha aparecido, a mãe disse que ele tinha ido mais cedo novamente, para algum projeto.

    Achei estranho, mas tinha coisas o suficiente para me preocupar.

    Estava tudo acontecendo normalmente. Até normal demais para meu gosto. As aulas iam acontecendo, cheias de conteúdos e atividades.

    Antes do intervalo o professor disse para irmos até o pátio principal, a diretora tinha um comunicado a dar.

    Todos se reuniram de frente para o palco ao ar livre, esperando para saber o que seria tão urgente que não podíamos comer.

    — Silêncio! — A diretora disse em um microfone. — Hoje, ao entrar na secretaria, me deparei com uma surpresa. Uma das caixas de arrecadação para a festa do pijama do 3° ano sumiu.

    Um murmurinho começou, e logo cresceu.

    — Silêncio, por favor! — Ela repetiu três vezes até conseguir falar novamente. — Até que encontremos o culpado, a festa do pijama será cancelada.

    A diretora continuou falando, mas sua voz foi abafada pela indignação dos alunos.

    A festa do pijama era a versão brasileira de um baile dos Estados Unidos. O evento mais esperado por todos. Todos do último ano se reuniam para passar a noite em uma festa surreal, vestindo pijamas no colégio. Como era uma festa para o 3°, pouquíssimos dos anos anteriores podiam participar, então, ganhava ingresso quem do terceiro ano queria convidar. Eles faziam diversas ações para conseguir a grana da festa (lavagem de carros, venda de doces, feiras, festinhas, etc.), por isso deixam poucos participarem.

    Eu estava causando tudo aquilo. Mas não podia voltar atrás. Tinha certeza que eles conseguiriam mais dinheiro logo. Ou um pai rico iria subordinar o colégio para a festa continuar.

    — Eu vi você — O sussurro me fazendo arrepiar.

    — O quê? — disse, dando uma de desentendida.

    — Não se faça de sonsa — disse paciente. — Rosa combina com você.

    Ele passou o dedo contornando o meu maxilar, provocando mais um arrepio. Ele tinha me visto?!

    — Ainda não sei do que você está falando — continuei o teatro.

    — Acho que a diretora ficaria feliz em ver as fotos que tirei ontem a tarde. Quer ver? — ele mostrou a tela do celular, uma foto minha, de cabelo rosa e moletom, brilhava na tela.

    Tirei o celular da mão dele, agarrei seu braço e o arrastei até uma sala vazia longe da multidão.

    — Ei... Eu posso ser bonito, mas não vai ser assim que vai conseguir um beijo meu — sorriu.

    — Pare de ser dissimulado — resmunguei. — Acredito que essas não sejam as únicas fotos salvas.

    Entreguei o celular para ele de forma ríspida. Detestava garotos que se achavam a última bolachinha do pacote. O gostosão.

    — Por que fez aquilo? — perguntou com seriedade. — Se era tão importante assim aquele dinheiro, poderia ter me dito o motivo, ou implorado para mim.

    Respirei fundo. Poderia ter me tornado uma ladra, mas não cometeria um homicídio também.

   — Eu não posso dizer — disse por fim. — Garotos riquinhos como você não sabem dar valor ao dinheiro que tem. Nunca vai saber o que é precisar de algo e não poder. Trabalhei as férias inteiras todos os dias, e ainda assim não consegui todo o dinheiro...

    Cerrei os punhos, apertando minhas unhas contra a palma, tentando controlar minha mente.

    — O que você fez é muito sério!

    — Eu sei... Mas eles vão conseguir mais. Algum pai rico vai pagar pro colégio esquecer a história e continuar com a festa... Ou aquelas garotas vão balançar os peitos molhados na frente dos carros.

    — É... Não é uma má ideia... A lavagem de carros foi realmente fenomenal, não acharia ruim mais uma edição — sorriu, malicioso.

    Ficamos em silêncio por um momento. O alvoroço lá fora continuava incansavelmente.

    — O que você realmente quer? — perguntei por fim.

    — O quê? — disse, desentendido.

    — Você podia ter corrido para contar que era eu. Você tem as provas bem aí na sua mão. O que você realmente quer? - repeti.

    — Bom... — Ele estava com um sorriso divertido e malicioso no rosto, mais uma vez. — Eu quero que você saia junto comigo. Até quando eu estiver afim.

    — Que papo é esse? — Estava incrédula. — Eu não vou beijar você.

    Ele deu uma risada rouca, achando aquela situação divertida. Se sentou na mesa do professor.

    — Não quero que você me beije. Quero que você saia comigo. Nos intervalos, nos passeios do colégio, se eu quiser ir ao cinema, na lanchonete ou qualquer outro lugar que eu queira que você esteja.

    — Mais uma vez: "que papo é esse?" — arregalei os olhos. — Você está ficando maluco?!

    — Vamos fazer o seguinte... Vou usar você até a festa do pijama. Sua última tarefa será ir comigo, depois disso estará livre.

    — Garoto, eu não vou a lugar nenhum contigo! — disse, exasperada.

    — Você não tem escolha, ainda não entendeu? — Ele balançou o celular na minha frente, com a minha foto de peruca bem ali.

     Quando eu abri a boca para falar, ele dispensou com um gesto da outra mão.

    — Nem pense em usar aquela lista contra mim. Ninguém vai acreditar em uma ladra destruidora de sonhos. Depois que essas fotos vazarem, você vai ter que mudar de país, se é que isso vai resolver alguma coisa.

    — Você é um demônio — vociferei.

    — Um demônio bem bonito, por sinal. Vamos lá, temos um trato? Ou já posso ir até a secretaria conversar com a senhora Figueira?

    Fiquei em silêncio. O dinheiro em minha mochila na sala de aula pesava na minha cabeça. Era só ver as fotos e vasculhar minhas coisas que não teriam dúvidas.

    — Certo... - falei relutante e estendi minha mão — Temos um trato.

    Ele deu um sorriso enorme, apertou minha mão e, antes de sair, virou-se para mim.

    — Quero ver se você consome minha fogueira mesmo, Ana - disse com tom brincalhão e foi embora. 

Rostos BorradosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora