— Ei, vai com calma! — Nataly falava rindo.
— Só assim pra eu virar alguém sociável nessas festas de vocês — retruquei mal humorada.
Já era provavelmente a minha terceira dose de tequila da noite. Eu mantinha um discurso de que bebidas alcoólicas não eram uma boa coisa, mas - tia Amélia que me perdoe - as bebidas me ajudavam a ser um pouco mais sociável com pessoas que eu não conhecia. Não sou alguém que gosta de ficar em lugares com muita gente, mas com os amigos que fiz e o namorado que tenho, as festas vinham no pacote. Não era tão ruim assim, nenhuma tortura, mas eu realmente preferia ficar em casa assistindo um filminho.
— Pelo menos você tem um namorado — Ela sussurrou —, eu estou encalhada a tanto tempo que acho que virei virgem de novo.
— Você consegue alguém fácil — abanei a mão, descartando o que ela disse.
— Para você é fácil falar, você é tão bonita! E nem se produz toda pra ficar assim — resmungou. — Chega a ser injusto.
— Bom, não é fácil passar maquiagem sem parecer uma palhaça quando eu não consigo ver meu próprio rosto — falei irritada.
— Como assim? É só olhar no espelho, boba — Ela riu.
— Não é tão simples assim — suspirei, cansada de esconder essa parte de mim. — Eu realmente não consigo ver o rosto de ninguém. Consigo perceber as expressões, mas na aparência... É como se tivesse um borrão.
Nataly ficou calada por um momento. Se ela fosse parar de ser minha amiga, tudo bem, eu já não me importava tanto - mas confesso que meu coração estava acelerado e minhas mãos suavam.
— Prosopag...nosia? — Finalmente falou, pensativa — É isso, não é?
— Não exatamente — tentei não transparecer minha surpresa. — Os médicos disseram que eu não tenho problemas físicos para que isso aconteça e os psicólogos disseram que pode ser algo relacionado com traumas do passado. Na doença em si as pessoas não conseguem perceber emoções no rosto, mas eu consigo. Eles não sabem me dizer o nome, mas chamam de "cegueira visual".
O silêncio se instalou novamente. Nataly olhava para longe, ainda pensativa. Será que eu tinha afastado uma das poucas amigas que tinha? Com certeza Tony, Joyce e Vanessa iam ficar do lado dela.
— Sinto muito, amiga — Ela me abraçou — Deve ser muito difícil para você!
— Você está zoando comigo? — Minha voz vacilou.
— Claro que não! — Ela olhou para mim enquanto suas mãos acariciaram meus ombros — Imagino que deve ter sido difícil para você. E como eu não sabia, acredito que ninguém na escola saiba. O que aconteceu? Você sofria bullying?
— Sim, por isso mudei de escola e decidi guardar tudo para mim. O Rafa sabia, depois o Lucas e agora você. Por favor, não conte para ninguém — implorei.
— Seu segredo está guardado comigo — passou o indicador e dedão juntos na boca, como um símbolo de zíper.
Sorri agradecida e aliviada. Não tinha perdido uma amiga, no final das contas.
— O que vocês estão conspirando aqui? — Lucas chegou me abraçando pela cintura.
— Nada demais — Nataly riu e saiu de perto de nós.
Lucas me encarou com uma expressão de interrogação.
— Agora ela sabe sobre minha doença — falei com um sorriso enorme no rosto.
Ele me abraçou, também feliz, sabendo o quanto aquilo era importante para mim. Depois ele me soltou e ficou sério.
— Como está o Caio? — perguntou.
— Bem machucado — Também fiquei séria e com sentimento de culpa. — Você tinha que ver, Lucas, ele estava todo arrebentado. Disseram que vai ficar mais alguns dias em observação para monitorar uma hemorragia no fígado, e ver se ele vai fazer cirurgia ou não. Tudo isso por minha causa!
— Não é culpa sua, meu amor! — Ele disse com tom suave, enquanto me envolvia em seus braços de forma protetora. — Consuela fez aquilo, não você.
Eu lutava para não deixar as lágrimas caírem. Recusava-me a sucumbir novamente e deixar que ela estragasse minha vida.
— Tudo bem... — falei por fim — Não posso deixar que ela estrague minha vida sem nem estar aqui. Que tal aproveitarmos?
Enlacei seu pescoço com meus braços, dei alguns selinhos e mordisquei seus lábios, provocando-o. Ele apertou minha cintura e me beijou com vontade, aproveitando que estávamos dentro da casa e poucas pessoas se encontravam ali.
O celular dele começou a vibrar e ele atendeu. Logo seu rosto ficou sério e eu pude jurar que vi uma sombra passando por ele.
— Vocês não podem fazer isso! — Sua mandíbula estava tensionada de um jeito que eu nunca vira — Não importa onde eu estou. A decisão não é de vocês!
Ele ouviu a pessoa do outro lado e desligou. Fechou os olhos e respirou fundo. Quando resolveu abri-los novamente, seu olhar estava triste.
— Desculpe, Nana — Ele deu um beijo em minha testa — Preciso ir para casa. Meus pais... Eles voltaram a falar sobre me mandarem para uma faculdade na Flórida.
Não tive chance de falar ou perguntar qualquer coisa. Fui deixada ali mesmo, plantada na cozinha americana de uma garota do colégio, completamente desolada e confusa. "Ele disse 'faculdade na Flórida'?", meus pensamentos começaram a ficar estranhos e frenéticos. Eu sabia que Lucas ia para a faculdade no próximo ano, mas achava que ia ficar na cidade e nós poderíamos continuar juntos, mas a possibilidade de uma universidade em outro país era algo completamente diferente. Bebi o restante do que tinha em meu copo e saí para o quintal, onde todos estavam reunidos. Nataly me viu e correu em minha direção.
— Ana, o que aconteceu? — preocupou-se.
Percebi meu rosto molhado e minha visão embaçada. Era isso, eu estava chorando e não tinha ao menos percebido. Nataly passou o braço pelos meus ombros e me conduziu de volta para a casa, sentando-se junto comigo no sofá.
— Estou aqui. — Ela esfregava meus braços, tentando me confortar - O que aconteceu? Lucas disse algo errado para você? Eu vou matar aquele babaca!
— Não... — sussurrei, por fim. — Eu só não tinha percebido ainda o quanto gosto dele. Quer dizer... Óbvio que eu gosto dele, mas não achei que doeria tanto a possibilidade dele ir embora depois que terminasse o ensino médio.
— Ele vai embora mesmo? — Sua voz era suave.
— Acho que nem mesmo ele sabe ainda — dei de ombros. — Ouvi ele falando com os pais no celular. Ele disse que vão mandá-lo para a Flórida assim que acabar aqui. Pelo que eu sei, o pai dele tinha feito faculdade lá, e provavelmente deve querer que Lucas siga o mesmo caminho. Eu sei que ele não quer, mas não sei se ele conseguiria ir contra.
— Ana... — Ela me abraçou. — Imagino o quanto isso deve ser difícil para você. Sinto muito, querida.
Ficamos ali por alguns minutos. Ela limpou meu rosto, o que me fez lembrar da primeira vez que conversamos, quem diria que estaríamos ali naquele momento. Fiquei grata por ter a conhecido e nos tornado amigas.
Eu sabia que, se Lucas realmente fosse embora, eu não estaria sozinha. E aquela sensação era muito boa.
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Rostos Borrados
RomantikJá imaginou não conhecer a si mesmo? Rostos borrados, desconhecidos amigos, nenhum traço. Ana é uma garota sem rosto. E todos a sua volta também. Em meio a multidão desfocada, um amor da infância ressurge em sua vida depois de seis anos. Será que el...
