Vovó manda lembranças

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    Eu não fui atrás de Lucas para saber o que estava acontecendo. Eu era orgulhosa e cabeça dura demais para tocar no assunto. Até porque já fazia um bom tempo que não conversávamos, e mais uma semana se passou depois do episódio na escada.

    Comecei a perceber que Caio estava meio estranho. Às vezes eu pegava ele me encarando intensamente, e depois disfarçava como se não fosse nada.

     — Então, o cara pulou do helicóptero, pousou na asa do avião, trocou de lugar com o piloto e derrotou o exército — Eu falava incrédula. — Como que um maluco consegue fazer isso?! Eu sei que é um filme de ação, mas eles podiam fazer umas coisas mais realistas.

    Caio me ouvia meio distraído, enquanto comia algumas batatas fritas. Revirei os olhos e fui pedir mais um milkshake. A menina do caixa me deu um desconto, por ir lá tantas vezes. Adorava quando ela estava trabalhando, sempre tinha alguma piada engraçada para me contar, e seu cabelo platinado não tinha como confundir.

    — Seu amigo parece meio distraído hoje — Ela comentou, rindo.

    — Ele nem ao menos está escutando o que eu estou falando. Deve ter brigado com alguém importante — dei de ombros. — Obrigada, Esme, pode ficar com o troco!

    Me despedi dela e peguei meu pedido.

    — Ei, Aninha! — André se colocou na minha frente e eu quase derramei meu milkshake nele.

    — O que você quer agora? — bufei.

    — A Joyce me pediu pra te chamar — continuou, alheio a minha cara de desdém. — Eles estão lá no parque.

    — Uma hora dessas? — estranhei.

    — É, parece que eles querem fazer um piquenique à luz da lua — Ele riu da ideia.

    — Estranho... — fiz uma careta.

    — O que foi? — Caio perguntou, passando o braço pelos meus ombros.

    — André está dizendo que o pessoal vai se reunir no parque para um piquenique noturno.

    — Uma hora dessas? — Ele franziu a testa.

    — Foi justamente o que eu estava falando. Estranho eles não terem me mandado mensagem - conferi o celular para ver se não tinha perdido nada.

    — Eles acharam melhor vir chamar, já que você está aqui — deu de ombros.

    — Quer dar uma passada lá comigo? — olhei para Caio. — Não estou muito afim, mas vou passar para dar um "oi", e aí vamos embora.

    — Tudo bem... — Ele concordou. — Só para você não ir embora sozinha.

    Acompanhamos André pelo parque, e ele nos levou para uma parte que tinha bastante árvores e meio distante. Instintivamente peguei na mão de Caio, eu estava com um pressentimento ruim.

    Então André parou, do nada. Nenhum sinal do meu grupo de amigos por ali, e a iluminação era ruim. Apertei a mão de Caio, apreensiva.

    — O que está acontecendo aqui? — perguntei, tentando manter a voz firme. — Algum tipo de brincadeira?

    Quatro homens surgiram da escuridão. O medo tomou conta de mim, fazendo-me lembrar daquele dia que mataram minha mãe.

    — André... — chamei — Que porra é essa?

    Os homens vieram para cima. Caio me colocou atrás dele, ficando de frente para os cinco. De forma alguma sairíamos dali a salvo. O terror me deixou em câmera lenta, e eu não conseguia mover um músculo sequer.

Rostos BorradosOnde histórias criam vida. Descubra agora