Observei a trajetória do mestre Yoda até ele topar com a parede do outro lado do quarto.
O chaveiro não tinha culpa, mas seu dono estava me deixando com muito ódio. Rafa não atendia minhas ligações, ignorava minhas mensagens, e provavelmente falava para os pais mentirem que ele não estava em casa.
Deixei Hades girando sob minha cabeça, pendurado em meu dedo. Lucas ia ter que esperar um pouco para receber o chaveiro que era sua caricatura.
Ouvi meu celular tocando.
— Oi? — perguntei, estranhando o número desconhecido.
— Você pode me encontrar no Jota's agora? — Eu não conhecia a voz.
— Quem é? — perguntei, confusa.
— Como assim "quem é?", Ana — falou, irritadiço. — Sou eu, Lucas.
— Aah... Hades, é você. Estou doente, não posso sair — fingi uma tosse.
— Pode ter funcionado com seu pai, mas eu sinto cheiro de mentira de longe — desdenhou.
— Não esperava menos de um demônio — zombei — Eu não quero ir.
— Esqueceu do nosso trato? Estou te esperando aqui — Ele riu e desligou.
Revirei os olhos e me obriguei a levantar da cama. O dia de princesa que eu tinha planejado para mim, precisaria esperar.
Cheguei na lanchonete e me sentei em uma mesa vazia, observando ao meu redor.
— A madame vai me ignorar mesmo? — Lucas se sentou ao meu lado, colocando uma cestinha de batatas fritas e um refrigerante na mesa.
— Desculpe, não tinha te visto.
— Eu estava bem ali na sua frente — comentou. — Você olhou na minha cara!
— Eu estou aqui e já pedi desculpas, não pedi? — disse, impaciente. — Cadê aqueles seus amigos? Esqueceu de pagar a mensalidade?
— Muito engraçado — Ele riu sem achar graça —, eles queriam o dobro pra voltarem a sair comigo.
— É mesmo... — Lembrei da discussão na boate. — Você atrasou pra pagar e eles queriam te extorquir. Aliás, grandes amigos aqueles caras. As meninas, você paga também? Eu vou ter mensalidade?
Peguei algumas batatas ignorando seus protestos.
— As meninas não precisam ser pagas. Eu pago os meninos porque assim é mais fácil conseguir pegar as meninas.
— Você consegue ser muito escroto quando quer — comentei, fazendo cara de nojo.
Ficamos em silêncio por um tempo, aproveitando as batatas enquanto ainda estavam quentes.
— Por que você está matando aula no meio da semana? — perguntei, curiosa.
— Por que você está? — Ele devolveu a pergunta.
— Queria passar um tempo sozinha — dei de ombros.
— Então, digo o mesmo.
Hades — quer dizer, Lucas — queria passar pela avenida principal, apenas matar tempo até que estivesse na hora das aulas acabarem. Saindo da lanchonete esbarrei em alguém, e ouvi um gritinho indignado.
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Rostos Borrados
RomansaJá imaginou não conhecer a si mesmo? Rostos borrados, desconhecidos amigos, nenhum traço. Ana é uma garota sem rosto. E todos a sua volta também. Em meio a multidão desfocada, um amor da infância ressurge em sua vida depois de seis anos. Será que el...
