Uma bebida muda tudo

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    — Desce do pedestal, você não é tudo isso que pensa — Uma garota de cabelos azuis disse rispidamente.

    Mais uma vez cheguei cedo no colégio e me vi ouvindo conversas alheias.

    — Eu devia ter ficado com a Laura, ela é bem mais acessível que você — O garoto disparou.

    — Você é muito escroto, Yan. Não sei como eu gostava de você.

    A menina saiu apressada, e, para evitar que o garoto voltasse a falar com ela, veio em minha direção.

    — Ei, Ana! — Ela acenou animada. — Como você está? Faz tempo que não te vejo aqui no colégio, aconteceu alguma coisa?

    Ela laçou meu braço com o dela, e sussurrou "entra na onda, por favor". Fiquei olhando para ela, com a testa franzida e totalmente sem vontade de ajudar.

    — "Eu não sou um Iceberg que nem você, eu tenho uma vida social para manter" — falei com uma voz irritante.

    — O quê? — Ela se fez de desentendida.

    — Você não é tão burra assim, garota — devolvi. — Eu tentei te ajudar aquele dia, mas você foi super grossa. Não me interessa o que vai acontecer contigo, deixe-me em paz!

    Ela tirou o braço do meu, e me encarou incrédula, fazendo-me parar de andar.

    — Desculpe, de verdade. Eu estava em um momento difícil — olhou para as unhas pintadas.

    — É... Momento muito difícil - ironizei e revirei os olhos.

    — É sério! — colocou a mão em meu braço — Elas eram tudo para mim. Passei anos agradando aquelas vadias, para na primeira oportunidade elas me chutarem para longe.

    — Agora você pode tirar essa sua máscara e parar de tentar agradar os outros — tirei sua mão de mim e voltei a andar.

    — Pensei muito no que você disse — disse, acompanhando-me. — Eu sou boa demais para aquele garoto, e com certeza sou boa demais para ser amiga daquelas meninas. Eles que precisam de mim.

    — Tenho quase certeza de que não foi isso que eu disse, mas tudo bem — virei no corredor de salas, na esperança de Lucas estar por ali.

    — Mas agora nós duas podemos sair juntas! — Ela falou toda animada.

    Parei de andar e a encarei. Acho que eu ouvi errado, mas só para ter certeza...

    — Nós duas — apontei para ela e depois para mim — sairmos juntas?

    — Isso, boba! — Ela continuava animada — Agora que eu não faço mais parte das "Bervelys" eu quero fazer novos amigos. Como você me ajudou aquele dia, acredito que vamos ser ótimas amigas.

    Fiquei calada. Como aquela menina chegou naquela conclusão depois de eu ter jogado os lenços na cara dela e falado para ela ficar rastejando no chão como um verme?

    — Você não precisa de mim — falei, rispidamente. — Vá procurar alguém que se importe contigo.

    — Ana, Ana, Ana... — Ela falou balançando a cabeça. — É feio mentir, sabia?

    Revirei os olhos e dei as costas para ela, na esperança de ser deixada em paz.

    — Rafael foi embora — constatou. — Agora você está sozinha. Você precisa de amigos!

    Achei quem eu procurava. Deixei ela falando sozinha e me apressei para alcançá-lo. Ele me olhava com uma expressão engraçada.

    — Rafa acabou de ir embora e você já quer substituí-lo? — Ele riu, olhando para a menina que deixei para trás.

Rostos BorradosOnde histórias criam vida. Descubra agora