Sofá caliente

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    Por um segundo ele ficou relutante e surpreso. Mas logo se entregou, assim como eu. Nossos lábios estavam sedentos por aquele momento, tornando nosso beijo frenético. Suas mãos acariciavam meus cabelos, passou pelo maxilar e fez um rastro descendo pelo meu braço.

    Ele acariciou minhas costas e segurou minha cintura com firmeza, tentando trazer-me para mais perto. Minha mão direita se entrelaçou nos cabelos dele e a esquerda fez um tour pelo torço, ousando se aventurar debaixo de sua camiseta. Pude sentir o abdômen levemente definido e me direcionei para as costas, passando minhas unhas levemente por toda a extensão, fazendo-o arrepiar.

    Senti sua mão descendo até a curva da minha bunda e a apalpando, desejoso. Ele me ajudou a passar a perna ao seu redor e ficar em seu colo. Minhas mãos voltaram para seu rosto, contornando o maxilar e se entrelaçando na nuca.

    Seu beijo era quente e abrasador ao mesmo tempo que era gentil e delicado. Ele me devorava com desejo. Sua mão direita dançava pelas minhas costas, enquanto a outra segurava minha coxa. Nossos corpos se colaram e se apertaram, em uma tentativa de quase se unir em um.

    Eu estaria mentindo se dissesse que sabia quanto tempo ficamos ali, em uma dança de sedução e paixão. Parecia que o tempo tinha congelado, e o mundo era todo nosso.

    Até que ouvimos o barulho de porta se abrindo. Me joguei no sofá de qualquer jeito, tentando disfarçar o que estávamos fazendo. Sentia o sangue fervilhando no rosto e meu coração acelerado.

    — Estão acordados até agora? — Meu pai apareceu na cozinha.

    — Depois do que aconteceu hoje, dificilmente vou pegar no sono — comentei. — Não se preocupe com a gente, pai.

    — Claro... Minha filha volta pra casa toda machucada e eu não preciso me preocupar — ironizou.

    — Vou cuidar bem dela, Senhor Gomez — Lucas disse com firmeza e lançou um sorriso travesso para mim.

    — Eu sei que tem alguma coisa errada quando você me chama de senhor — Ele apontou com tom acusador. — Já que ninguém aqui está com sono, a senhorita pode começar a falar.

    Meu pai se sentou entre nós dois, alheio ao que tinha acabado de acontecer ali.

    — Vamos, estou esperando... — Ele falou, com uma certa impaciência e preocupação.

    Suspirei fundo. Já era hora de abrir o jogo, mesmo que isso fosse magoá-lo ou deixá-lo com raiva.

    — Vovó... — comecei a falar. — Fui atrás dela há umas semanas atrás.

    Aquela simples frase já foi o suficiente para ele compreender tudo que aconteceu comigo. Ele abriu a boca algumas vezes, em um ensaio para dizer algo.

    — Por que você fez isso, Ana? — disse por fim, seu tom uma mistura de medo e desespero. — Se você soubesse o que ela fez...

    — Desculpe, papai — coloquei a mão sobre a sua. — Eu sei que não tem desculpas para o que eu fiz, mas... Desculpa. Eu não me lembrava do que tinha acontecido, queria entender meu passado. E a única coisa que eu me lembrava era o nome dela. Paguei um detetive particular pra procurá-la...

    — Você o quê?! — Ele elevou a voz.

    — Com os trabalhos de verão, consegui pagar um detetive para procurar por ela — Sim, eu omiti o roubo na escola, ele não precisava saber — Demorou um tempo, porque ela vive trocando de nome, mas achei. Lucas me levou até lá...

    — Você sabia disso? — Ele se dirigiu para Lucas. — E concordou em levá-la?

    — Eu não sabia o que era, eu só a levei para que não fosse sozinha. — Lucas levantou as mãos em defesa. — Descobri a história toda depois que ela viu a velha...

    — Você ficou maluca?! — Meu pai gritou em minha direção. — O que você estava pensando?

    — Eu queria entender o que aconteceu, papai - falei com a voz fraca. — Eu não me lembrava de nada. Até onde eu sabia, Consuela era só um nome envolvido com mamãe. Assim que vi aquela tatuagem... Me lembrei de quem ela era... E me lembrei do que aconteceu naquele dia...

    — Ana... — Meu pai perdeu a compostura e me abraçou. — Eu não devia ter escondido isso de você. Mas quando você saiu do hospital, você não sabia o que tinha acontecido. Sua mente tinha apagado tudo, e você começou a ter aquela cegueira visual. Vi uma chance de você não crescer com o peso de tudo aquilo.

    — Eu entendo... Se eu pudesse voltar atrás, não teria procurado por ela — O abracei de volta.

    — Então, esses machucados... — Ele olhou meu rosto. — Foi ela?

    — Uns empregados dela — falei tocando o corte em minha têmpora. — Disseram que ela mandou lembranças. Você acha que ela vai aparecer para matar todos nós?

    — Sinceramente... Eu não sei — Meu pai estava com os olhos marejados. — Eu diria para sairmos dessa cidade e começar uma nova vida. Mas ela nos encontraria de qualquer jeito. Vou falar com meus amigos da polícia, talvez eles possam ter uma ideia do que fazer.

    — Desculpe, de verdade. Não queria causar tanta confusão assim.

    — É seu direito, filha — Ele passou a mão em meus cabelos. — Você tem o direito de conhecer seu passado, por mais horrível que ele seja. Sinto muito ter descoberto assim...

    Ficamos ali até os primeiros raios de sol, apreensivos pelo que poderia acontecer conosco.

    Eu e Lucas fomos para o colégio. Por mais que tínhamos motivos o suficiente para ficar em casa, acabamos indo, para ocupar a cabeça com alguma coisa. Não adiantaria nada ficar em casa remoendo ideias idiotas.

    Assim que chegamos no portão, Lucas parou e me olhou com intensidade.

    — Nana... — Meu querido apelido de volta em sua boca — O que aconteceu na sua casa...

    Ele passou a mão nos cabelos, sem jeito. Eu não tinha motivos para negar o que sentia depois dele ter me salvado de uma morte certa e, principalmente, daqueles amassos que demos no sofá. Então, eu o beijei ali mesmo. Um beijo rápido e delicado, sem me importar com a dor que sentia no canto da boca. Sorri em sua direção, percebendo o sorriso bobo que brotava em seu rosto, peguei sua mão e entramos no prédio.

    Não preciso dizer que Nataly e o pessoal ficaram de boca aberta quando nos viram juntos. Aliás, a escola inteira nos olhava. Não sabia se achavam mais surpreendente eu e Lucas estarmos juntos ou meu rosto cheio de cortes e hematomas. Nunca me senti tão exposta como naquele momento, mas sinceramente... a megera aqui não estava nem aí.

Rostos BorradosOnde histórias criam vida. Descubra agora