Capítulo 40

69 3 9
                                        

Estava caminhando sentido o chalé de Bia, a manhã estava agradável e o sol apontava no céu, lembrando mais uma vez que a vida podia florescer.

Parei em frente a sua porta repassando todos os detalhes que não poderia esquecer de mencionar e achar uma forma de convencê-la. Bati três vezes e aguardei, não levou mais que dois minutos para ela abrir a porta com cara de sono.

- Lizie?

- Bom dia - sorri e mostrei a pequena sacola com pão e geléia - Trouxe seu café. Podemos conversar?

- O que tem ai? - ela puxou a sacola das minhas mãos e começou a vascular com os olhos - Pão e geléia? - suas sobrancelhas se uniram, analisando ou ponderando o que estava fazendo ali - Bom, entre logo.

Me sentei no sofá, a casa estava silenciosa e Bia parecia desconfiada. Nada anormal, visto como ficamos da última vez que nos falamos.

- O que quer? - Ela retirou o pão da sacola e a geléia indo atrás de uma faca na cozinha.

- É sobre Bete. - comecei a torcer a barra de meu avental - O dr. Andrew e eu conversamos, ele tentou ajudar, e conseguiu descobrir que ela mesma causou o envenenamento.

- O que?! - ela gritou da cozinha e em menos de um segundo, estava parada a minha frente - Como?

- Ela tinha a planta em casa, a cultivava, acredito que para esse objetivo, mas como o efeito foi prolongado, ela resolveu acelerar e se enforcou.

- Não... não pode ser isso. Liz então...

- Então esquecemos esse assunto.

- Acredita mesmo no Doutor?

- Bia, não teria por que suspeitar dele, sei o quanto isso... isso é complicado.

- Preciso lhe contar uma coisa - ela sentou-se e juntou as mãos, o olhar perdido na decoração da mesa de centro - Tinny estava me ajudando a conseguir as documentações dos casos que consegui na delegacia.

- Então era isso que Tinny estava fazendo? - juntei a sobrancelhas - Por que então ela tentou me encurralar?

- Ela está curiosa, não expliquei muita coisa a ela. Tinny é o braço direito de Margareth, apenas me ajudou porque me devia.

- Acha que ela é confiável?

- Nem um pouco - ela sorriu - Mas sei como mante-la sobre controle.

- Não quero nem imaginar como - balancei a cabeça - Sabe que pode confiar em mim.

- Eu sei, mesmo você sendo cabeça dura, nunca mostrou o contrário. Ainda está querendo desistir?

- Sim. Mas tem algo que está me incomodando nisso tudo - me levantei e comecei a caminhar de um lado ao outro da sala - Tinny roubou meus bilhetes, leu, quis me interrogar.

- Como ela os encontrou?

- Não faço a menor ideia, mas ela estava estranha, parecia querer provar ser capaz de tudo para conseguir qualquer informação.

- A troco de quê? Droga! Ela deve ter comentado algo com Margareth.

- Duvido que seja isso - parei de andar e me sentei - Bia, eu queria largar tudo isso, voltar para casa, ver minha familia. Ter meu irmão de volta. - suspirei - Mas nenhuma dessas coisas é possível no momento, sei que é uma tremenda burrice agir como duas detetives justiceiras, mas ninguém mais parece tão interessado nessa história quanto nós.

- Então isso é um sim? Você me confunde as vezes, diz que quer largar, mas sempre aparece trazendo mais informações ou suspeitas... Lizie, eu quero ir mais a fundo, prender quem está nos ameaçando, o problema é que quanto mais eu cavo mais novidades eu encontro.

- Sei que sempre sou confusa, mas não consigo largar, por mais que eu queira. Mas você descobriu algo?

Ela passou as mãos no rosto e se levantou, pedindo com as mãos que eu aguardasse ela voltar. Fiquei observando a simples decoração, um pouco mais sobrea e espaçada que a minha. Bia era uma mulher inteligente, curiosa e teimosa, acredito que isso nos faz termos esses momentos de desacordo, mas ainda sim, confio na intuição dela, e algo me diz que ela não estava tão errada.

- Aqui - ela retornou com um monte de papel em mãos, sua expressão estava séria e suas mãos corriam as folhas com agilidade quando ela se sentou - Agora sim, não há como me achar louca.

- O que você encontrou?

- Lembra dos casos que mencionei? Passei a madrugada seguinte digitando tudo na sala de datilografia, anotei tudo que havia observado ou encontrado de semelhança - ela me entregou as anotações, todas muito organizadas.

- Tiny conseguiu alguns prontuários antigos dos nomes que havia coletado, e então voilà, temos conexões.

E la estavam, nomes e mais nomes, com os mesmos dados do legista a respeito das causas das mortes. Envenenamento.

- Como?

- Eu não sei - ela deu de ombros - Todos com os períodos de pausa idênticos, exceto pelos dez anos. Dez anos de pausa Lizie.

- E agora... em menos de seis meses, voltou a ocorrer.

- Exatamente, assim como alguns casos isolados de mulheres encontradas mortas em seus aposentos, todas, todas, com sinais de envenenamento, e sempre com as mesmas flores. - Bia retirou do monte de papéis uma fotografia de uma planta, a cor assepsia da imagem não permitia vermos a cor com clareza, mas com toda certeza, visualmente inconfundível.

- Acônito.

- E agora? O que fazemos com isso tudo? - soltei os papéis no colo e a encarei.

- Vou pensar em algo, se o Doutor tiver alguma amostra da planta, posso tentar reproduzir o veneno e testar.

- E como você testaria isso?

- Ratos, é o que mais temos por aqui.

- Isso não está ficando sombrio demais?

- Não, é algo necessário Lizie, assim conseguimos provar para a polícia, temos as ameaças, temos como divulgar e alertar que estamos enfrentando um inimigo oculto aqui mesmo, dentro da base.

- E se vierem atrás de nós?

- Eu tenho um ótimo gancho de direita, e um taco de beisebol, não vamos nos preocupar com isso, afinal nunca estamos sozinhas.

- O que quer que eu faça? Fale com o Doutor apenas?

- E faça perguntas ao carteiro - ela me entregou um papel - ainda não me esqueci dele.

- Se eu for presa, vou te levar comigo - dobrei o papel e guardei no avental - Não vamos parar, não é mesmo?

- Não até termos por encerrado.

- Boa sorte - me levantei e pousei a mão em seu ombro - Vai precisar.

- Você também Lizie.

Assim que pus os pés para fora da casa, minha visão foi ofuscada pela claridade. Uma sensação estranha pairava sobre a brisa, era algo como um aviso, mas como sempre eu ignorei, e como sempre, aquele pequeno momento se mostrou um passo em falso, diante do que estava por vir.

Além do AlcanceOnde histórias criam vida. Descubra agora