Capítulo 8

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Quatro meses e apenas dois para estar na frota de enfermagem! Claro que nós não éramos experientes para exercermos a profissão sem supervisão de uma enfermeira de verdade, digamos que éramos mais auxiliares do que enfermeiras. O curso dado pelo governo era básico e as mais importantes eram as que cursaram em faculdades.

Durante muito tempo fiquei imaginando como seria quando tudo começasse para valer, era como andar de montanha russa, você nunca sabe qual será a curva ou o luping que vai dar. Estando lá veremos muitas coisas terríveis, eu sei disso e é o que mais me assusta.

Acordei cedo e hoje não tínhamos aula, somente tempo livre para estudos. Tomei meu café e me aconcheguei na biblioteca, lendo alguns livros e tomando um chá.

- Tudo está indo maravilhosamente bem, não é Lizie? - Greta perguntou se sentando a minha frente.

Aquela garota, não me descia bem, mesmo que tenhamos nos falado umas três vezes, minha intuição dizia que ela seria um pé no saco.

- Sim, melhor impossível! - levantei o olhar para ela.

- E sua família? Seus irmãos? - ela perguntou.

- Estão ótimos. Bom não sabemos ainda como andam meus irmãos, mas oro a Deus todos os dias por suas vidas. - voltei minha atenção para as cartas em sua mão.

- Bom talvez tenha mais sorte na próxima, quem sabe eles não lhe enviam cartas! - ela as colocou sobre a mesa. - estas são da minha família, eles me escrevem todos os meses!

- Meus pais também... - voltei minha atenção para o livro e a ignorei.

- Vejo que está lendo uma listagem de ossos e órgãos... porque?

- Por nada, estou estudando, como você já sabe, temos este dia para estudar! E você está me atrapalhando! - levantei para ir em direção a outra mesa.

- Educação faltou na sua casa! - ela alfinetou.

Me virei para ela.

- Educação só se é usada com quem merece! - me sentei e voltei a estudar.

Depois de muitas páginas e muitos exercicios, Anna chegou para conversar comigo.

- Eu vi... - ela puxou o livro da minha mão - Porque age assim com ela?

- Nada, ela só não me desce... - Fechei meu caderno.

- Só isso? Como pode não gostar de alguém que você nem conhece? - ela disse.

- Não tenho nada contra ela, mas também não tenho nada a favor, sempre com um pé atrás! - levantei e segui em direção a porta.

- Opa, bravinha, o que deu em você? Tá de TPM? - ela parou a minha frente.

- Acho que sim... - Revirei os olhos - Tá Anna Desembucha!

- O que? Não fiz nada! - ela me entregou o livro.

- Então por que veio falar dela para mim? - andamos juntas até a pratileira para guardar o livro.

- Só acho que você deveria tentar conhecer ela antes de julgar! - ela me seguiu até a porta novamente.

Suspirei.

- Tá bom... eu vou tentar! Prometo! - Fiz um X no peito.

- Assim que se fala! - ela grudou no meu braço - Vem vamos dar uma volta!

Passamos a tarde juntas, fizemos um lanche e ela me contou tudo que tinha aprendido e disso saiu uma discussão longa de ossos, pele e órgãos.

Uma semana se passou e estávamos na aula, suturando um sapo que havíamos aberto.

- Meu Deus! Acho que eu vou desmaiar! - Erica disse virando o rosto para o lado.

Ela estava ao meu lado direito, enquanto Célia, estava do outro. Ela era baixa e com cabelos ruivos, suas sardas davam a impressão de seu nariz ser maior que o normal.

- Se você cair em cima de mim, juro que ponho esse sapo em baixo da sua coberta! - Falei rindo.

- Shiu! Vocês duas, quietas! - Senhora Tânia disse com o dedo na boca. - Vocês meninas, parecem muito displicentes, como querem tornar - se enfermeiras?

- Desculpe senhora! - eu e Erica falamos juntas.

- Espero ver melhoras nas próximas aulas... - ela voltou sua atenção para os sapos na mesa. - Bom, as suturas estão excelentes!

Logo depois saiu sorridente para acompanhas as outras. Senhora Tânia podia ser rígida, mas era uma boa pessoa. Pelo que fiquei sabendo, ela perdeu o marido na guerra e depois disso, não abandonou mais seu posto, mas foi obrigada a vir dar aulas, só não sei porque ao certo.

Horas mais tarde, estava eu deitada em minha cama, vagando os pensamentos em um livro antigo que achei na biblioteca, era um livro de romance e me deliciei a cada palavra.

- Não cansa desses livros? - Anna perguntou se deitando na cama.

- Não, não me canso. - Fechei o livro e o depositei sobre a mesa. - Eles são como... Como, uma viajem, a qual eu posso ficar horas e horas sonhando.

- Eu te entendo! - Greta falou do outro lado do quarto. - Adoro me perder em minhas leituras.

Anna me olhou, sorriu e arqueou as sobrancelhas.

- É incrível como simples palavras nos levem tão longe! - Falei.

- Sim, incrível! - ela sorriu e se virou para o lado se cobrindo.

Anna se esticou um pouco para ficar perto de mim.

- Estou feliz em saber que vai cumprir com sua promessa. - ela cochichou.

- Sempre cumpro! - sorri.

Peguei meu Diário.

Estou ansiosa para ir ajudar a enfermagem na guerra. Tudo prece acontecer muito rápido e faltam apenas dois meses, 60 dias para ser exata, e em fim fazer o que desejo! O que será que irei encontrar?

Greta pode não ser o que imagino, talvez possa apenas ser intrometida, mas nunca fez mal a ninguém... Então estou apenas sendo gentil por Anna.

Me virei para o lado e apaguei o abajur. Estava exausta e não demorei para dormir.

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