Capítulo 50

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Meus amigos estavam preocupados, isso era evidente, eu estaria também se estivesse no lugar deles. Totalmente no escuro.

Cutuquei o pedaço de torta de maçã que estava no prato, Adam estava lendo o jornal, tentando encontrar alguma notícia semelhante ao que havia lhe contado nas últimas horas. Ele passava os olhos rápidos pelas palavras, franzia o senho e mordia o lábio.

Adam era como uma pintura, parecia ser de outro mundo, como se você entrasse em um museu e desse de cara com uma estátua de mármore. A perfeição e imperfeição estavam ali, algo belo mas sem vida. Antes de me apaixonar por Adam, eu sabia que seu olhar era sem vida, como se carregasse o peso do mundo nas costas. Obviamente, mais tarde eu soube o por que, e sabia que agora ele parecia mais radiante, mais vivo, mais esperançoso. Gostaria de ser essa esperança para ele, gostaria de leva-lo daqui e lhe oferecer uma vida simples, sem tantos problemas, que o máximo de preocupação seria o que faríamos para o jantar, ou então o que eu vestiria para comemorarmos uma data importante. Adam era a minha estátua grega, belo, esperançoso mas definitivamente eu não o merecia, o que o tornava impossível, inatingível.

Eu sou egoísta e ele altruísta. Eu sou um desastre e ele sempre parece ter uma solução na manga. Eu sou pessimista e arrogante, ele é gentil e empático. Eu não o merecia, nem a ele e nem a Drake, quem eu parti o coração e não senti nenhum pingo de culpa ou remorso. Eu era uma pessoa ruim, não era uma heroína nem mesmo uma salvadora. Por um instante eu acreditei que seria, naquele dia em que saí de casa escondida, jurando que seria útil para o meu país, que seria útil para cada homem que se jogou contra os milhares de soldados inimigos em busca de uma justiça que justificasse tudo aquilo.

Nada justificaria aquela guerra, nem as milhares de mortes. Todo aquele caos acontecendo ao nosso redor e eu apenas me importei com um perseguidor, um possível maníaco. Quem ligaria para um maníaco, quando seus irmãos estão lutando uma guerra que eles não causaram? Quem se importa com todas essas ameaças quando alguém viu o próprio irmão morrer, quando alguém perdeu o melhor amigo. Quando eu nem mesmo sei onde meu irmão está ou se está realmente morto?

Eu me alienei por puro egoísmo, jurei sair dessa ilha e enfrentar essa assombração de frente, junto com outros milhares. Mas aqui estou eu, comendo em uma lanchonete pacata, como se o mundo não estivesse se acabando pela janela. Uma lágrima escorreu por minha bochecha sem que eu notasse. Talvez isso apenas me tornasse humana, ou apenas me mostrava a verdadeira face da humanidade. Egoísta e soberba.

Ninguém daria a mínima para esta guerra se não estivessem inseridos nela. Fosse por força física, por orgulho ou dinheiro. Se nada disso fosse atingir vocês, ninguém estaria empunhando suas armas e indo lutar por um povo de outra terra. O mundo é egoísta, a guerra é egoísta, e cada um escolhe a guerra que quer carregar. Eu sabia que a guerra que ocorria era muito além de ganância, muito além de poder, sabia que haviam muitas camadas e nuances que cercavam cada acontecimento anunciado pelo rádio. Havia apenas uma coisa que me consolava naquele momento, diante de cada pensamento assombroso. Havia esperança em quem acreditava.

Esperança era tudo o que cercava cada um que decidia lutar por sua família, por seu país ou mesmo por sua vida. Havia esperança, que aquela guerra um dia acabasse e aquele povo fosse livre. A esperança guiava uma nação inteira. Talvez fosse dessa esperança que eu precisasse beber. Pois ao olhar para cada acontecimento ao meu redor, eu me sentia cada vez menor e impotente. Se Adam voltasse ao esquadrão do coronel eu jamais o veria, se Drake subisse em um caça, eu jamais o veria novamente. Mas eu precisava me agarrar aquela esperança que no final de tudo isso eu veria, sentaria com cada um deles e tomaria uma dose de bebida em nome da vitória. Eu precisava manter isso em mente se quisesse sair dali, sair de toda aquela situação.

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