Capítulo 20

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Voltamos para o salão e me apressei em ver como Thomas estava, ou melhor, Adam. Seu dogtag ainda estava guardado comigo, e me peguei o lendo novamente no dia anterior.

- Perdão, a senhorita é quem? - ouvi uma voz abafada e com um sutaque forte. Olhei para a maca e ele estava sentado, com a boca cheia de comida.

- Sua enfermeira, quem trouxe essa comida para você? - Perguntei colocando a tigela no chão, abaixo da maca.

- Qual seu nome enfermeira?

- Como se sentou? - me levantei colocando o kit em cima da mesa ao lado da maca.

- Podemos parar de fazer perguntas e começar-mos a responde-las? - ele falou limpando a boca com um guardanapo.

- Certo - suspirei - Me chamo Jones, Lizie Jones, e você?

- A... Thomas - ele limpou a garganta - Thomas senhora.

- É mesmo Thomas? Tem certeza? - me aproximei - Você não foi muito sutil quando chegou, acho que acabou esquecendo um certo colar.

Ele arregalou os olhos e começou a tossir sem parar, ao perceber que ele estava na verdade engasgando, me apressei para fazer a manobra certa. Três vezes e finalmente ele cuspiu um pedaço de maçã, me afastei recuperando o folego e esticando os braços.

- Tudo bem? - peguei sua bandeja.

- S-sim... Merci - ele respirou fundo e tossiu um pouco - Sabe quem eu sou?

- Adam Beaumont-Bressuire, certo? Ou você roubou esse também?

- Roubar? Não roubei ninguém!

- A é? Como veio parar aqui então?

- Você ja deve imaginer - ele falou sorrindo - tu sais quem sou, tu sais como venu aqui.

- Apenas sei que é francês, mas desconheço sobre sua pessoa e como veio parar aqui - coloquei a bandeja sobre uma pequena mesa - Mas acredito que não vai me contar.

- Realmente? Não, não há muito o que contar... se sabe quem sou, como ainda estou vivo? - ele massageou o pescoço.

- Ordem superior - peguei o kit para suas feridas.

- Mais alguém além de você sabe? - ele apertou as mãos, deixando os nós dos dedos quase brancos.

- Apenas eu entre as enfermeiras, por isso precisa falar menos e tentar maneirar no sutaque - me aproximei de sua perna enfaixada, que foi recentemente amputada, sobrando apenas um pequeno pedaço abaixo do joelho.

- Tudo bem - ele suspirou e ficou em silêncio.

Suspirei ao desatar a faixa e expor a grande ferida, que estava seca e bem cuidada a propósito, sem sinais de infecção. 

- Ma bonté! - ouvi Adam dizer e olhei para seu rosto, petrificado e espantado diante da perda de um membro.

- Sinto muito - falei tentando esconder o desdém da minha voz, sentia pena mas ela não superava a avessa que sentia por sua origem.

- Ainda não caiu a ficha - ele limpou a garganta.

Ficamos em silêncio enquanto eu terminava meu trabalho, seu silêncio me espantou, sabia que estava doendo, mas ele não demonstrava. Talvez estivesse escondendo para não demonstrar fraqueza diante de uma inimiga de seu povo. Passei para as feridas menores, haviam cicatrizes de estilhaços em seus braços, alguns cortes e queimaduras em seu corpo e rosto. Ele virou para o lado e adormeceu, após terminar-mos. Me sentei para fazer as anotações para serem entregues, mas paralisei ao encontrar um pequeno pedaço de papel preso a minha caneta.

Me encontre na entrada dos alojamentos hoje as oito.

Prendi a respiração na hora, ao ler aquilo um turbilhão de possibilidades passaram diante dos meus olhos. Poderia ser Bianca, estavamos nos evitando a um tempo, após o ataque, mas talvez ela havia decidido me contar algo sobre o nosso agressor. Talvez fosse o dono das ameaças?

Amacei o bilhete e o enfiei no bolso do avental, precisaria pensar em uma forma de ir, mas me manter sobre controle e com algo que possa me defender. A curiosidade me mataria se eu não me arriscasse nessa incerteza.

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