Capitulo 17

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- O que houve? - o Médico perguntou assim que consegui ficar a sós com ele no corredor.

- Como eu disse antes, algo muito ruim aconteceu - peguei o Dog Tag e mostrei a ele - Francês, um francês o que podemos fazer? Deviamos entrega-lo ao general? Avisar as autoridades maiores?

- Droga! Sabia que tinha esquecido alguma coisa - ele suspirou - Preciso que não diga isso a ninguém, eu devia ter guardado isso! Como sou burro.

Olhei confusa para ele, que olhou para os dois lados do corredor e me puxou para uma sala vazia ao nosso lado. Me afastei com receio e ele andou de um lado ao outro pensativo, por fim decidiu acabar com o mistério e responder as perguntas implícitas em minha face.

- Qual seu nome senhorita? - ele gesticulou com a mãos direita.

- Lizie, Lizie Carter.

- Certo - ele suspirou - isso que irei te dizer, não pode, de maneira alguma sair desta sala.

- O senhor está me assustando... - apertei o colar.

- O General Wessex, que estava responsável pela carga do navio, entregou esse rapaz a mim.

- Como?

- Assim que desembarcaram, ele me pediu para assegurar que o francês estivesse a salvo. Não sei bem, ele me contou por cima, mas disse que o rapaz, mesmo perdendo um parceiro ao seu lado, se lançou para salvar a vida do general.

- Ele salvou o general? Mas ele não era da frota inimiga? - tudo parecia um pouco confuso, mas talvez a guerra em si não fosse tão preto no branco como eu pensava.

- Sim, não sei dizer ao certo como as coisas aconteceram, foi apenas essa informação que me foi passada, e como amigo de Wessex, o ajudei, e peço a você que faça o mesmo.

- Senhor, com todo respeito, ele é inimigo, matou homens também, não seria justo de nossa parte salva-lo.

- Ele matou assim como todos que estão na guerra mataram, minha jovem, todos estão ali lutando pelo país e por suas vidas, na guerra não existe herói, apenas soldados servindo a um propósito, não vamos condena-lo só pelo fato de que nossos paises estão em guerra. - ele falava de forma calma e até solene, o olhei admirada, de fato aquelas palavras me faziam pensar de forma diferente, mas ainda não sentia a mínima empatia pelo rapaz.

- Não sei... o senhor diz isso, mas não muda o fato dele ser um inimigo. - encostei na porta, pensativa.

- Tenha em mente, caso diga alguma coisa, não só ele será punido, mas eu serei, assim como o general, até você, por ter falado comigo antes de entrega-lo. Tenha um pouco de piedade, não quero lhe obrigar, mas terei de faze-lo caso insista na ideia. - ele se aproximou e pegou minha mão, que continha o dog tag - Seria sangue em suas mãos.

Suspirei, estava em conflito, não sabia se podia confiar em alguém que lutava ao lado dos alemães. Me afastei da porta para que ele saísse, ainda em silêncio, repensei sobre o assunto, estava dividida, mas talvez a escolha certa fosse a mais errada, eu só precisava me convencer a ser mais compreensiva.

- Só mais um pouco para o lado... - me inclinei, enquanto Anna olhava do meio da sala para o quadro - Mais um pouco.

- Eu vou cair se me inclinar mais! - falei.

- Perfeito! - ela bateu palmas em aprovação - Finalmente uma obra de artes.

- Mas isso é um... - Erica inclinou a cabeçada sorrindo - O que é isso?

- Arte! - Anna falou admirando o quadro.

- O restante das meninas sabem dessa sua, Arte? - perguntei colocando a cadeira no lugar.

- Vão saber, assim que entrarem e vislumbrarem essa magnífica, perfeita, incrível obra de arte.

Olhei para a tela, que exibia uma confusão de cores e até algumas formas geométricas. Era bastante estranho em comparação aos quadros que já vi.

- O que é isso na verdade? - me afastei para olhar melhor.

- Abstracionismo - ouvimos alguém falar e nos viramos, Tiny, nossa enfermeira chefe acabará de entrar na sala, estava sorridente ao contemplar o quadro. - É novidade por aqui, principalmente na Europa, acho muito interessante a forma como é, diferente do que conhecemos como arte.

Olhei boquiaberta para ela, que sempre era muito calada e pouco se socializava conosco, muitas vezes mal a percebíamos em casa.

- Exatamente - Anna falou com um sorriso de orelha a orelha.

- Muito bom gosto Anna - ela falou e logo se dirigiu ao quarto.

- Onde conseguiu isso? - perguntei.

- Cesar encontrou e me deu, não faço ideia de onde ele achou isso, mas como admiradora da arte, tenho que admitir que foi um achado magnífico.

- As vezes ela me assusta - Erica falou rindo - uma caixinha de surpresas.

- Tiny ou Anna? Por que eu mal sei dizer quem está me surpreendendo hoje. - falei me sentando na poltrona.

- E então, recebeu as cartas? - Erica perguntou sentando no tapete.

- Ainda não, confesso que as vezes quero não receber, caso elas sejam algo do tipo, "Seu irmão foi morto em batalha" ou "Prisioneiro de guerra" - suspirei - As vezes queria não ter de pensar nessa possibilidade.

- Mantenha o pensamento positivo Liz, tudo vai se resolver no final e vamos nos empanturrar de peru no natal, na sua casa - Anna falou sentando no braço da poltrona e colocando as pernas em meu colo.

- Se você cozinhar eu vou adorar! - falei sorrindo e ela apertou minha mão.

- Digo de verdade, sinto medo também, precisamos ser positivas, pensar sempre que tudo vai dar certo, porquê, imaginar voltar para casa sem um anel de ouro com o nome do Cesar no dedo, é inadmissível! - ela falou tão séria que tentei com todas as forças não rir, mas foi inútil, assim que olhei para Erica. - Ei!

- Você é uma sonhadora Anna - Erica olhou para nós duas sorrindo - E o Drake?

Desviei o olhar, corando levemente ao lembrar do compromisso que havia marcado para hoje. Era estranho pensar em Drake desse modo, ainda tinha dificuldades de ve-lo como um pretendente ao invés de um amigo, um irmão quase.

- Vamos nos encontrar hoje, ele disse para passar no porto as três.

- Você gosta dele? - Anna começou a brincar com meu cabelo que estava solto, o que era raro.

- Gosto, mas não sei se gosto do mesmo modo que ele, as vezes me parece muito... animado.

- Isso é bom, significa que ele quer tentar algo, talvez você apenas não tenha dado a chance que ele merece. - Olhei para Erica, ela era sempre a que sabia dar os melhores conselhos, mas sempre a vi tão triste, seu olhar muitas vezes, mesmo que estivesse sorrindo, exibia uma tristeza indecifrável, ela pouco falava de seu noivo e nós evitavamos tocar no assunto, era de extrema delicadeza.

- Acho que você tem razão, vou me esforçar - pisquei para ela, continuamos conversando o restante do dia, mas logo que vi o relógio de Anna que marcava quase três e meia da tarde, me apressei em ir ao porto.

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