Olhei pela janela do onibus e de onde estávamos, dava para ver o campus. Era uma construção de tijolos, grande e quadrada, havia um jardim na frente e árvores espalhadas, por todo lado que olhasse. Via - se homens com vestimenta do exército. Eles faziam caminhada e marchavam, outros ficavam em cantos estratégicos e armados.
O ônibus parou depois de circular em volta de uma ilha que tinha uma única árvore e uma placa no chão. Descemos e uma outra mulher, também fardada nos orientou até os dormitórios.
Olhei bem para a minha cama, fiquei pelo menos uns dois minutos encarando ela com as malas nas mãos. Comparando ela com a minha cama, ela parecia normal. Tirando o fato de ser de ferro, o colchão parecer ser bem fino e o travesseiro também. Era uma cama normal.
As roupas eram colocadas em um baú em frente a cama. Havia uma mesa de cabeceira com uma gaveta e em baixo da cama, uma espécie de rede para colocar os sapatos.
Quando havia terminado de colocar tudo em seu devido lugar, uma sirene começou a apitar e eu iria entrar em pânico se não fosse por Anna.
- Calma, é só para avisar que precisamos comparecer ao salão principal... o refeitório! - ela riu.
Anna tinha os cabelos pretos, tão pretos que parecia o céu de noite. Seus olhos eram grandes e cinzas, e seu rosto, delicado como de uma criança. Ela era um pouco menor que eu, e seu sorriso ganhava qualquer pessoa.
Saímos direto para o refeitório. Nos sentamos e logo depois Erica se sentou conosco.
- Boa tarde meninas, eu sou a professora de anatomia de vocês, todas as outras professoras estão aqui. Vocês devem estar se perguntando o porque de tantos militares em volta da escola. Bom eles são parte dos rejeitados da guerra que não vão atuar por lá, e que agora faz a segurança dos medicamentos que vem para cá e vão daqui para as bases próximas. - Ela andava de um lado ao outro. Usava óculos e andava meio curvada, seus cabelos com leves fios brancos, denunciavam sua idade.
Depois dela alguns dos professores se apresentaram e depois foram dadas as regras. Nada de homens nos dormitórios ou sozinhos com garotas. O horário de acordar estava marcado para as cinco em ponto da manhã, para darmos início às aulas. As camas deviam estar organizadas e arrumadas antes da cinco e vinte, nós devíamos estar prontas até cinco e meia para em fim descermos para o refeitório. E muitas outras regras.
- Lizie, você viu aquele guarda... o que estava na porta? - Anna perguntou quando estávamos no dormitório. Ela olhava pela janela, buscando o guarda.
- Não prestei muita atenção... - Falei.
- Pois eu vi Anna! - Erica disse do outro lado do dormitório. - Se eu pudesse, levaria ele para casa!
- Uau, vocês viram os livros que temos! São incríveis! - Falei folhando um que havia pego na estante que estava no corredor.
- Não... Lizie, você só pensa em livros? Existe uma vida lá fora... - ela sentou na minha cama, pulando, e então parou de falar e começou a me encarar.
- O que foi? - perguntei.
- Você por algum acaso já teve um namorado? - ela perguntou cutucando meu ombro.
- Não, nunca pensei nisso, sempre cuidei dos meus irmãos e dos meus pais... nunca tive chances... - Falei, de alguma forma, pensar naquilo, havia me deixado incomodada.
- Não acredito! - Erica surgiu do meu lado colocando o rosto sobre os braços no baú.
- Eu já tive três namorados e já dormi com dois deles! - Anna se levantou e começou a girar. - O Will, a ele era lindo, moreno, alto e sexy! - ela riu e nós também. - O Alan, ele era maravilhoso, adorava jogar Xadrez. E o Chris... - ela suspirou, rodopiando no ar e caindo no coxão. - Sem palavras!
Eu e Erica, não parávamos de rir.
- Eu só tive um... e ele está lá me esperando voltar! - Erica disse olhando pela janela.
- Não veio para servir a guerra? - Perguntei.
- Sim, mas vou tentar voltar... ele precisa mais de mim do que a guerra! - ela disse e então pude ver tristeza em seu olhar.
- Porque? - Anna perguntou deitando na cama com as cabeça no meu colo.
- Ele é deficiente... Depois de uma brincadeira com o carro, ele sofreu um acidente e hoje não move uma parte do corpo...
Naquela hora, entendi o porque de ela optar por cursar enfermagem. Ele com toda certeza precisa de todos os cuidados.
Um silêncio tomou o ambiente, até ser quebrado por garotas entrando e falando.
- Meninas, não vão tomar banho? Já está quase na hora de irmos dormir! - Margaret, se não me engano falou.
Nós levantamos e fomos para o banho. E depois, apaguei na cama.
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Além do Alcance
Historical FictionSe parte de sua família estivesse preste a desmoronar? Se você não tiver chance de salva-los? Lizie enfrenta um destino cruel e triste. Com a segunda guerra prestes a começar, Lizie só pensa em entrar para a enfermagem e cuidar dos feridos. Tudo co...
