O clima estava abafado, mesmo o sol e os pássaros não deixavam a sensação mórbida que se instalara após a cena que presenciamos mais cedo. Erica estava batucando os dedos no balcão da cozinha, ela havia insistido que nós a acompanhasse-mos até o necrotério para ter a certeza de que ela não estava imaginando coisas.
Era totalmente inapropriado, irresponsável e até mesmo um ato anti ético! Nós seriamos seriamente punidas, não tínhamos permissão para ter acesso ao necrotério sem consentimento de Margareth, mas ainda sim, ali estavamos nós, esperando dar o horário exato em que Margareth iria descansar e seria substituída por outra enfermeira chefe.
- Só eu acho isso tudo uma loucura? - Hanna cochichou - Você acha mesmo que deveríamos seguir com isso por uma mera intuição?
- Eu sei que é loucura, mas acredite em mim, eu nunca sinto algo assim e deixo de lado. - Erica cruzou os braços - Agora silêncio.
- Margareth já deve ter ido - Anna falou olhando para a janela da sala - Ela não desconfiou que nenhuma de nós apereceu por lá hoje?
- Ela soube do ocorrido, Tiffany a convenceu que nós não estávamos aptas para trabalhar com tudo que aconteceu - ela me encarou - Mas ela já sabe que trabalharemos na madrugada.
- Apenas trocas de turno Anna - Apertei sua mão que estava suada - Não vamos receber punição por não estarmos lá de tarde.
- Vocês são tão impossíveis, como podem estar tão tranquilas?
- Acredito que nenhuma de nós esteja de fato. - tentei lhe tranquilizar com um sorriso - Ninguém irá desconfiar de nós.
- É o que espero - Erica se levantou - Vamos.
Uma a uma nós entramos no Hall de entrada e seguimos direções diferentes, eu me apressei em organizar e trocar ataduras, verificar batimentos cardíacos e verificar as fichas presas as macas. Hanna ficou responsável de conseguir a chave do necrotério, que estavam na sala de Margareth, Anna cuidou de se ocupar com a atualização de fichas médicas de pacientes que já haviam recebido alta e Erica cuidou das medicações.
Poucas enfermeiras andavam por ali, poucos pacientes ainda estavam acordados, muitos eram civis e os poucos soldados que estavam ali, eram apenas por ferimentos leves após algum treino ou acidente com alguma arma.
Um arrepio subiu pelas minhas costas, senti a nuca esquentar e levei a mão a ela e imediatamente me virei.
- Boa noite senhorita Lizie - Adam sorriu e a cicatriz, agora aparente em sua testa, enrrugou quando suas sobrancelhas se arquearam - O que faz trabalhando aqui a essa hora?
- Eu é quem devo lhe perguntar, o que você está fazendo aqui a esta hora?
- Estava tomando soro, estou com uma dor de cabeça irritante - ele tocou a cicatriz - acredito que levarei um bom tempo até me acostumar a tudo.
- Está com muita dor? - me aproximei para examinar a cicatriz - Está sendo bem cuidada? Talvez se passasse um pouco de pomada, você levou alguma consigo?
- Sou um homem cuidadoso, estou fazendo tudo que me foi orientado- ele sorriu -, e você, normalmente está aqui de dia e não de madrugada. Achei que estaria tirando alguns dias de luto.
- Eu não estou de luto - o encarei, estávamos tão próximos que podia sentir sua respiração -, enquanto não provarem a mim que meu irmão está de fato morto, não tirarei um dia para lamentar algo que pode ser uma mentira.
- Sua fé nisso me impressiona...
Olhei para o relógio atrás dele e o horário estava próximo ao que teria de encontrar as meninas. Meu coração acelerou.
- Algo de errado? - ele se virou e voltou a me encarar - Tem algum compromisso?
- O que? N-não, eu apenas... estava conferindo a hora.
- Apenas conferindo as horas? Então por que de repente ficou tão inquieta?
Eu não estava inquieta, pelo menos não ao meu ver, mas não havia deixado de apertar a caixa que estava em minhas mãos.
- Vai encontrar alguém?
- Não, quem eu poderia encontrar a essa hora? - me virei indo em direção ao armário para guardar a caixa de medicações.
- Talvez aquele soldado, qual o nome dele mesmo? Derek?
- Drake, e não, eu não vou encontra-lo... por que achou que eu fosse encontrar ele?
- Você está agitada, parecia estar escondendo algo - escutei o barulho de sua muleta bater contra o piso.
- E com isso deduziu que fosse por conta dele? - me virei, Adam estava mais próximo que eu havia imaginado - Bom, se me der licença, vou terminar meus afazeres.
- Achei que nossa conversa mais cedo tivesse tirado de você uma impressão errada sobre mim. Mas vejo que estou errado.
Como ele conseguia me tirar do sério assim? Não, eu não confiava nele, mas também não o abominava como antes.
- Não tenho impressão errada sobre você. - toquei seu braço, um sorriso tímido ocupou os lábios dele - Você apenas me irrita.
- Bom pelo menos irritar é melhor que odiar. - ele piscou e logo se afastou para que eu passasse - Boa noite Lizie.
♧
Hanna surgiu no corredor apressada, Erica já estava andando de um lado ao outro nervosa, enquanto Anna roia as unhas. Sem dizer-mos nada, Hanna girou a chave na porta que levava a um corredor até o necrotério.
Assim que alcançamos o cômodo onde o corpo da jovem estava, um arrepio subiu por meu corpo e uma sensação de calafrio me fez sentir frio. Erica me encarou, parecia saber que algo não estava certo, ela foi a primeira a entrar seguida de perto por nós.
- Vamos lá garota, me conte o que realmente aconteceu - ela sussurrou pegando os papéis da autópsia.
- Conversa com cadávers agora? - Hanna perguntou puxando o lençol de cima do corpo - Caramba!
Anna se apoiou na parede e começou a vomitar, não pude lhe acudir, meus olhos não conseguiam deixar a imagem do corpo a minha frente.
- Odeio esse tipo de coisa, o sangue frio que a pessoa tem de ter é surreal - Hanna parou ao lado observando o peito aberto da garota - Se sabiam que ela havia se enforcado, porquê abriram o corpo?
- Esse é o propósito da autópsia - Anna falou limpando a boca - mas é realmente estranho.
- Olhem a boca dela - Erica falou largando os papéis.
- O que é isso? - me aproximei para olhar mais de perto.
- Veneno.
- O que?! - nós três encaramos Hanna.
- Ei silêncio! - Erica falou - Veneno?
- Olhe bem os lábios, não estão roxos como quando alguém sufoca, estão com feridas o pescoço tem apenas a marca da corda mas não está quebrado - ela mexeu o pescoço do corpo - e pelo fato de terem aberto ela, eles sabem o que houve, ou estão tentando descobrir.
- Tem feridas na pele - falei pegando o braço dela.
- Pupilas dilatadas - Erica falou - Quem pode ter feito isso?
Um pensamento passou por minha mente, mas julguei ser ilógico, aquela garota nada tinha a ver com a história que se desenrolou comigo e Bia, mas ainda sim meus instintos queriam me dizer o contrário.
Um barulho no corredor nos deixou em alerta, Erica rapidamente começou a guardar os papéis e Hanna arrumou o corpo. Tivemos de nos esconder debaixo da mesa de necropsia, aproveitando que o lençol nos cobria.
Céus, no que fomos nos meter?
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Além do Alcance
Fiksyen SejarahSe parte de sua família estivesse preste a desmoronar? Se você não tiver chance de salva-los? Lizie enfrenta um destino cruel e triste. Com a segunda guerra prestes a começar, Lizie só pensa em entrar para a enfermagem e cuidar dos feridos. Tudo co...
