- Finalmente! - Margaret falou assim que adentrei a sala onde estavam reunidas as enfermeiras, para uma divisão de tarefas e pacientes.
- Desculpe, houve um imprevisto - Estava terminando de colocar o chapéu quando ela me indicou uma cadeira, com um olhar severo.
Margaret entregou fichas para cada uma de nós, e começou contando sobre a situação de cada um e como deveríamos proceder em cada caso. Não tive tempo para ler a ficha ou se quer a quem ela pertencia, Margaret não parava de falar, e estava demonstrando uma preocupação genuína com a nossa capacidade de lidar com aquela situação. Não que fossem muitos feridos, a ponto de lotar as macas, mas tinhamos uma quantidade suficiente para que ficássemos ocupadas durante dia e noite.
- Bom estão todas dispensadas, deixei uma folha com instruções básicas no final das fichas - ela apertou as têmporas de olhos fechados - Por favor, não se desesperem com alguns dos pacientes.
- Sim senhora - falamos em uníssono.
- Lizie, Giorgia, Camélia, por favor fiquem - ela retomou a postura mais rígida - As outras podem sair.
Engoli em seco, sabia que aquele atraso me traria alguma consequência, mesmo ele sendo de apenas quinze minutos. Apertei a prancheta contra o peito assim que a sala esvaziou, e a porta foi fechada.
- Giorgia, sinto muito por seu pai - ela engoliu em seco - Sei que não quer ir, mas sua familia insistiu, arrume suas coisas.
- Não posso voltar para casa - ela baixou a cabeça - Não posso voltar e não o encontrar. Não posso Senhora.
- Querida - Margaret se sentou ao lado de Giorgia e segurou suas mãos, lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto - Entendo, entendo perfeitamente, mas fugir não vai fazer doer menos, e nesse momento, estar com a familia é o melhor remédio.
A garota concordou com a cabeça e começou a soluçar, abraçou Margaret e as duas ficaram ali por alguns minutos até que ela se acalmasse. Margaret explicou que após o enterro, Giorgia voltaria a base, mas que deveria ser forte e enfrentar de frente essa perda.
A jovem saiu, eu e Camélia ficamos sentadas em silêncio, aquilo havia mexido com uma parte que estava tentando esconder de mim mesma, a falta de notícias dos meus irmãos estava me deixando mais angustiada do que eu poderia transparecer.
Com Camélia foi um assunto breve, era algo relacionado com sua saúde, e me afastei para lhes dar privacidade, já que a garota demonstrou desconforto com o assunto que seria abordado. Após a breve conversa, sobramos apenas Margaret e eu, que suspirou alto ao se sentar ao meu lado.
- Não entendo como, nem o porque, mas o Doutor Russel, deixou claro que o paciente Thomas, estava sobre seus cuidados, apenas - ela me olhou nos olhos - Apenas seus cuidados, nem mesmo eu tenho a permissão de cuidar dele.
- C-como? - Thomas? Quem era Thomas? Por que eu deveria ficar responsável por ele?
- Não sei, também não entendi mas se caso precisar de algo com urgência fale apenas comigo, foram ordens dele. - ela colocou uma mexa do meu cabelo para trás - Sei do seu potencial, mas a ferida é muito grande e espero que saiba lidar com a magnitude disso.
- Não vou decepciona-la - me levantei - Meu turno será de vinte e quatro?
- Tive de negociar - ela sorriu - Será de dezessei, mas não poderá ficar mais que cinco horas longe, afinal ele terá apenas você como enfermeira.
- Sim senhora, ele tem poder para isso? - deixei escapar sem pensar muito em como deveria me referir ao doutor.
- Sim, ele tem - ela se levantou me acompanhando até o corredor - Não sei o por quê de ele ter essa preferência, mas se você quiser me dizer algo que saiba a respeito, serei toda ouvidos.
Na mesma hora minha ficha caiu, claro! O francês! Obviamente o doutor manteria a promessa que fez ao General, e eu estava mais que proibida de falar a respeito com qualquer pessoa. Limpei a garganta na hora e tentei falar algo que fosse convencível o sulficiente.
- Ele deve ter acreditado que os outros pacientes precisam de mais atenção que o Senhor Thomas, acredito que seja isso, mas não posso afirmar, ainda não entendi muito bem o que o Doutor quis com isso - sorri para ela - Mas, qualquer coisa, deixarei a senhora a par.
- Tudo bem - ela franziu a testa - Estarei aqui, caso precise.
Me afastei rapidamente, indo ao encontro do pirata francês, a vida dele estava em minhas mãos, e era melhor que ele fosse mesmo inocente, ou eu arrumaria um jeito de evitar que ele acabasse com a minha vida.
Ao chegar em sua maca, que estava coberta por completo pelas cortinas de divisória, longe o sulficiente do restante. Respirei fundo e abri uma fresta, passando por ela e indo até a janela para a abrir. Não prestei muita atenção no caminho que tomei, por conta do nervosismo, e tropecei em uma tigela, em uma tigela no chão, cheia de um liquido amarelo e fétido.
Ótimo! Um maravilhoso começo de dia!
Olhei para meus sapatos molhados, sabia que teria um intervalo para comer algo, aproveitaria para trocar isso.
- Qui est la? - ouvi ele resmungar, parecia que estava dormindo ainda, mas não saberia dizer já que estava com a cabeça bem enfaichada.
- Olha, não faço a mínima ideia do que disse, mas se você pudesse não falar nada seria ótimo - estava torcendo para que ninguém o tivesse escutado, por mais baixo que tivesse dito. Me abaixei para pegar a tigela e ele ficou em silêncio novamente, me livrei do liquido e higienizei o recipiente, aproveitando para pegar uma bandeja com o kit para fazer a limpeza de suas feridas.
- Por que se atrasou? - Anna apareceu derrepente na sala em que estava prestes a sair.
- Nada - peguei uma jarra de água e um pano.
- Lizie - ela puxou meu ombro para que eu olhasse para ela - Aconteceu algo? Margareth disse algo?
- Não, o que ela iria me dizer? Apenas pediu para que eu fosse mais pontual - Não iria dizer sobre o fato de estar obcecada com os bilhetes que havia recebido. Eles se tornaram constantes e sempre os encontrava por acaso, mas como se quem quer que fosse, saberia onde colocar.
- Eu a vi sair cedo de casa - ela se afastou e fechou a porta atrás de si - Seja lá o que estiver fazendo, lembre-se de usar proteção - ela passou as mãos sobre o avental - Sei que Drake é legal, mas não seria oportuno engravidar agora.
Olhei para ela um pouco confusa, não fazia a mínima por que Drake estaria sendo pauta dessa conversa, ao perceber que ela esperava uma resposta, humideci os lábios, pensando em algo que de alguma forma não traria nenhuma confusão a respeito daquilo.
- Está tudo bem Anna, eu e Drake nem ao menos nos beijamos! - eu sabia como funcionavam os órgãos genitais e como se usava proteção, mas não tinha a minima ideia da funcionalidade do ato em si - Estava apenas com um incomodo no estômago e sai para respirar um ar e acabei me atrasando.
- Sei... - ela semicerrou os olhos com um sorriso travesso - Não vou insistir, mas caso seja o estômago, tome um chá que aliviará seu mal estar.
- Certo - me organizei com os utensílios que havia pego - Tenho de atender ao paciente e você também.
- É, eu sei, mas tudo está sobre controle por enquanto - ela abriu a porta - Sabe que pode me contar qualquer coisa.
- Eu sei - sorri para ela - Contarei caso tenha algo para ser dito.
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Além do Alcance
Historical FictionSe parte de sua família estivesse preste a desmoronar? Se você não tiver chance de salva-los? Lizie enfrenta um destino cruel e triste. Com a segunda guerra prestes a começar, Lizie só pensa em entrar para a enfermagem e cuidar dos feridos. Tudo co...
