Capítulo 24

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Diante do sol
Beleza incalculável
Inalcançável devastação
Eis em mim sua penumbra
Noturna como rio negro
Entrelaçando minhas entranhas
Visivelmente ardente
Chama da alma solitária
Ao longe vejo a marca
Singela devastação
Fumaça negra e inebriante
Cega e traiçoeira
Tira de mim
Tira de muitos
De milhões

O poema que havia escrito na noite em que meus irmãos se foram, ressoava em minha mente, agora como lembrete de que Drake também se fora, e logo a guerra tiraria algo mais, pois ela sempre tira. Era como acordar naquele dia nublado, com cheiro de chuva, olhar pela janela e saber que Eduardo e Michael não passariam pela porta a caminho do trabalho, não roubariam mais as flores que eu achava bonita. A lembrança veio quente e húmida junto as lágrimas, sabia que precisava de notícias, necessitava saber como minha familia andava, e algo simplismente me incomodava, uma sensação que algo ruim estava prestes a acontecer, sabia que essa sensação não iria embora tão cedo.

Ainda sonolenta, me obriguei a tomar um banho e me vestir, havia prometido a mim mesma que estaria na partida do cargueiro nesta manhã. Não perderia a chance de servir como esperança a meus amigos, que seguiriam por um destino incerto mar a dentro. Drake em especial.

- Acha que eles vão nos ver? - Anna me perguntou enquanto nos esgueiravamos por detrás das grades da base militar.

- Não importa se vão nos ver, importa que estejamos aqui - a empurrei para perto de um arbusto ao ver um carro do exercito sair em direção a cidade - Se nos pegarem espiando, vão pensar que somos do lado inimigo.

- Olhe para nós Lizie, nem o general mais burro poderia acreditar que nós duas podemos oferecer qualquer perigo.

- Prefiro não arriscar, ninguém por aqui sabe que eles estão partindo em missão - me apressei a atravessar o pequeno jardim para conseguir avistar o cargueiro que se preparava para a partida - É enorme!

Anna apertou minha mão entusiasmada, nada nunca a deixa cabisbaixa, era impressionante como até mesmo uma joaninha poderia a deixar feliz.

- Por favor voltem em segurança. Por favor voltem em segurança - Anna repetia com dedos cruzados e os olhos fechados.

- Eles vão - apertei seu ombro e seus olhos se abriram para focar no cargueiro cheio de homens andando de um lado ao outro, figuras pequenas e que a está distância eram indistinguíveis.

Ficamos ali, observando até o cargueiro ligar os motores e começar sua partida. Assim que aquela monstruosidade começou a se mover, meu coração acelerou, ao lembrar do ataque ao cargueiro que trouxe Adam até nós, a meras milhas de distância de Pearl Harbor. O que está a nossa espera lá fora?

- Eu desisto! - Adam levantou a mão tossindo ao realizar o gesto - Você venceu.

- Eu sou ótima no xadrez - sorri para ele.

- Bom, vou ter de treinar mais, odeio perder - ele piscou para Anna que soltou uma risadinha. Adam olhou pela janela, e sua expressão se tornou séria.

- Não quer mesmo tentar? - Anna perguntou pegando o par de muletas.

Ele olhou para suas mãos, parecia em conflito, seu olhos encontraram os meus, uma dúvida pairava neles.

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