"[...]Boletim urgente, semana passada os alemães atacaram a Polônia, não temos informações concretas ainda.
Mas sabemos que as ameaças eram verdadeiras.
Boa noite e desejamos que de tudo certo."
Quando o boletim acabou, minha mãe estava muda, e sem reação, assim como meu pai. Eu fiquei refletindo sobre toda a informação transmitida.
Absorvendo o fato de uma guerra estar se formando. E isso só me deu ainda mais vontade e determinação.
Eu iria servir como enfermeira e nada iria me impedir.
Meus pais pediram que eu levasse meus irmãos para dormir. Obedeci.
- Lizie, porque a mamãe estava chorando? - Eliot perguntou, depois de ajeitar ele em baixo das cobertas.
- Bom, maninho é coisa de adulto, quando vocês crescerem eu explico tudo...
- Mas a gente sabe que as pessoas choram, quando estão tristes! - minha irmã disse se encolhendo.
- Sim... mas isso nós vamos deixar para amanhã... Vamos dormir? - levantei e desliguei o abajur.
- Hum... Boa noite Liz... - eles disseram e viraram de lado, sai para o meu quarto.
Encostei na parede e ouvi meus pais conversando.
- O que vai ser dos meus filhos? - Escutei a voz da minha mãe engasgada pelo choro.
- Eles vão ficar bem! Vamos ter fé que Deus está com eles! - meu pai a confortou.
Então senti meu rosto quente e molhado, eram as lágrimas incontroláveis que insistiam em cair. Entrei em meu quarto e me joguei na cama.
Isso não pode acontecer! Meus irmãos não podem...
Peguei meu Diário e abri em uma página qualquer em branco, peguei uma caneta e rabisquei ele com toda a fúria. Não era à melhor coisa para passar a raiva, mas era eficiente para me acalmar.
- Não vou abandonar você! Eu prometo! - abracei o porta retrato em que estavam eu e minha família toda no natal. - Nunca... Abandonarei...
[...]
Depois de acalmar a raiva e a indignação, comecei a escrever.
Uma notícia que com toda certeza, devasta uma alma chegou aos meus ouvidos. Não posso crer que uma coisa dessas possa acontecer tão rápido como água fervente. Estou desarmada, devastada, desolada e com muito medo, mas o medo não é maior que a minha raiva.
É tão injusto com a vida, pessoas se acharem no direito de tirar vidas, de acabar com sonhos e expectativas. Me revolto com esses tiranos, que se acham no direito de arrancar o brilho dos olhos das pessoas. Imagino o quanto estão sofrendo. Não sei por que não deixaram a Polônia em paz, por que não deixam o mundo em paz! Deus com toda certeza está triste e com muito desgosto deles. O pior de tudo isso é o fato de saber que meus irmãos estão prestes a entrar de frente nessa batalha, e isso é a última coisa que eu pensei que acontecesse. Ameaças atrás de ameaças, e eles nem imaginavam que elas iriam mesmo se concretizar.
[Algum tempo depois]
Cai da cama com o despertador zumbindo no meu ouvido. Eram exatas, 5:30 da manhã. Levantei e fui escovar meus dentes. Me arrumei. Fiz um penteado que demonstra - se responsabilidade e desci nas pontas dos pés até a cozinha.
Roubei alguns pães velhos, comi um e Guardei outro para a viajem. Subi para o meu quarto novamente e peguei minha mala, que havia organizado a uma semana.
Deixei um bilhete, no meu travesseiro e sai, antes que acordasse alguém.
Havia posto minha melhor roupa, uma saia caqui e uma camisa branca. A saia era comportada, abaixo dos joelhos e os sapatos de salto pretos. Cheguei no ponto de ônibus e esperei o que levava a base de recrutamento.
Haviam pessoas de todo o tipo ali dentro. Me sentei na janela e peguei meu Diário.
Tudo começou bem, pelo menos consegui sair de casa. Agora estou a caminho da base, para o alistamento.
Já tenho uma base sobre enfermagem, graças aos livros que peguei na biblioteca.
Depois do alistamento, pelo que sei, terei de fazer um curso, cerca de seis meses. Espero estar apta para ir a uma base grande.
- Vai ver seu namorado? - Uma garota que estava sentado ao meu lado perguntou. Mas eu nem havia percebido sua presença.
- Como disse? - fechei meu Diário e olhei para ela confusa.
Será que aquelas mulheres vão ver seus namorados na base?
- Estou brincando com você! - ela riu.
- A sim! - sorri.
- Bom, pensa só, terá milhares de homens lá. E nós podemos achar um noivo!
- Sim, mas não pretendo ir em busca de marido. Quero ir porque, realmente amo cuidar de pessoas doentes, isso me fascina!
- Também gosto... mas quem sabe... - ela estendeu a mãos para mim - Annabett Gregário.
Apertei sua mão.
- Lizie J. Cárter Jones. - sorri e ela também. Depois daquele breve diálogo, ficamos em silêncio, até chegar a base.
Durante todo o caminho fiquei imaginando como seria quando eu fosse para uma das bases... ou talvez em algum hospital que recebesse esses homens.
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Além do Alcance
Narrativa StoricaSe parte de sua família estivesse preste a desmoronar? Se você não tiver chance de salva-los? Lizie enfrenta um destino cruel e triste. Com a segunda guerra prestes a começar, Lizie só pensa em entrar para a enfermagem e cuidar dos feridos. Tudo co...
