chapter 38

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VICTORIA'S POV

"A vida não vai te dar algo que você não consiga aguentar", muitos ao meu redor diziam. Mas isso é mentira. É claro que a vida dá. Ninguém é preparado para enterrar o seu filho, para dizer adeus a uma pessoa que eles criaram. Isso é muito para uma alma humana processar e aguentar. Mas, nós não temos outra opção sem ser sobreviver a isso.

Se passaram 2 meses desde aquela madrugada horrível naquele hospital francês, e desde que eu saí do hospital. 2 meses que de certa forma, o meu mundo caiu. Não haveriam abraços suficientes nem carinho suficiente para minimizar a dor, ela continuava sempre lá. Quando eu acordava, quando eu dormia, e enquanto eu dormia. É como a minha mãe. Me lembro dela todo o dia, apesar de se terem passado quase 10 anos da sua partida. A sua pequena face ficou gravada na minha mente, mesmo que eu nunca tivesse tido a oportunidade de ter pegado nela. 

Fiquei 2 semanas na UTI. No sexto dia, no dia em que Angel morreu, entrei em coma diabético, e só acordei dias depois. E um dia depois de acordar, o meu quarto encheu de médicos outra vez, de familiares. 

"A Angel é uma estrelinha agora, Victoria"

Aquelas palavras me magoaram de uma forma que nenhuma lâmina poderia.

1 semana depois de permanecer em vigilância, me deram alta, mesmo que eu recusasse quase toda a comida que me davam. Sair daquele hospital sem a minha Angel nos braços foi uma coisa que eu nunca tinha pensado fazer. Já andando, caminhei até à van, de mão dada com Dam. Precisávamos de um tempo sozinhos, para fazer o luto, para descansar. 

Por semanas, fiquei agarrada ao Dam na cama dele enquanto eu chorava até adormecer, e ele me limpava as lágrimas, me enchia de beijos, escondia as calorias das comidas e me colocava bem até eu me lembrar da Angel, minutos depois. Ele andava sempre comigo, para todo o lado. 

O mundo continuava a girar, mas para mim parecia que ele estava parado. Tínhamos show-cases marcadas ao redor da Europa em âmbito do nosso novo projeto que tiveram de ser adiados assim que soubemos que eu estava com "problemas de saúde", e que tinham sido marcados para o próximo mês. Acontece que o próximo mês chegou, e eu teria de seguir em frente. Damiano, Ethan e Thomas continuavam a insistir que eu deveria esperar, e descansar. Porém para mim, ficar em casa só me fazia ficar ainda mais enterrada, literalmente. Eu sentia que tinha morrido, e que tinham esquecido de me enterrar. Mas quando eu estudava para a universidade, ou quando tocava baixo, ou até quando transava com Dam, me sentia um pouco viva de novo. Era o que me distraía do assunto.

A minha recuperação foi excelente, nas palavras dos médicos. Agora, tenho uma cicatriz com cerca de 10 centímetros na parte inferior da barriga e cicatrizes no meu psicológico que não sei se vão cicatrizar muito bem. A minha barriga continuava inchada, e lentamente, estava a perder todo o peso que tinha ganhado na gravidez. Durante muito tempo, tinha em uma pequena cadeira no meu quarto o que eu tinha colocado antes de vir para Paris: uma roupinha de bebê nova, um par de Dr Martens muito pequeno e uma mala de maternidade inteira. É verdade que eu não fui a mãe que mais se preocupava com a sua gestação, mas usava maior parte do meu tempo livre para tratar de tudo o que iria fazer a Angel cómoda. Havia um quarto na minha casa que costumava estar cheio de coisas de roupas velhas ou reservas de comida. Há dois meses atrás, tinha esvaziado esse quarto com a ajuda da minha irmã e estavam lá todas as coisas que já tinha para ela. Dentro de um armário do meu quarto, estavam as roupinhas dela, que não eram muitas. Naquele quarto, tinham 4 móveis por montar, 1 banheira e uma cadeira de embalar que eu costumava me sentar lá e descansar. Um dia, aproveitei que o Damiano não estava em casa, e ignorando as ordens médicas de repousar, montei lentamente o berço dela, com algum sofrimento em me agachar e pegar em coisas mais pesadas. Mas montei isso, depois de 4 horas. Estava morrendo de dores, mas ao menos tinha feito isso. 

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