Todos os sentimentos que evitei durante minha vida, foram jogados em cima de mim como um grande bloco de concreto. Tive que enfrentar meus medos e lidar com todas as consequências das minhas decisões.
Eu confiei em Jiyong, abri as portas da minha casa, da minha vida e do meu coração, e ele não teve forças para permanecer. No final, a família dele venceu. Ficou com Jiyong só para eles.
Quatro anos atrás, enquanto estávamos ocupadas com a abertura do restaurante que abri junto com a senhora Kim, fizemos a festa de 1 ano da pequena Haru. Jiyong não havia retornado seis meses após sua partida como havia prometido, mas voltou para a festa de 1 ano dela. Eu estava cheia de saudades, e ansiosa aguardando seu retorno, e foi realmente incrível ter ele de volta em casa. Passamos muito tempo juntos. Durante as madrugadas, encontrava ele admirando Haru no berço, enquanto cantava alguma música em coreano. Eu me pegava encantada olhando aquela cena.
Vinte dias depois de sua volta, tivemos uma briga. E ali percebi que eu estava esperando por algo que não seria real.
-Você me prometeu. -Eu disse com a voz embargada, enquanto sentia o nó em minha garganta e minha respiração acelerar.
-Isa...eu sei...eu falhei...mas eu consegui reverter alguns contratos e consegui novos.
-Não foi para isso que você foi?
-Sim...mas eu vi que posso fazer mais. Tem pessoas que dependem de mim Isabel...
-Sua filha e eu também precisamos de você.
-Meu pai está doente, minha vó não tem mais idade para cuidar os negócios da família...não posso simplesmente deixar tudo isso para trás.
-Mas está me deixando para trás. -igo e sinto as lágrimas rolarem em meu rosto.
-Não Isa...não estou... -ele se aproxima e me abraça, mas estou ferida, magoada e com raiva, mantenho meus braços para baixo, com minhas mãos fechadas em punho.
-Você vai ficar por quanto tempo? -pergunto, mas eu estava confusa, com minha cabeça doendo e com um enjoo forte.
-Não tenho previsão, mas vou ficar indo e vindo por um tempo. Posso tentar vir de 3 em 3 meses. -Ele procura meu olhar e eu solto uma risada irônica.
-Claro...vamos manter uma relação à distância...por que não? -tiro as mãos dele do meu corpo e me aproximo a porta enquanto respiro fundo e passo as mãos por meu rosto.
-Isabel...estou te peino um pouco de paciência.
-Não...está me pedindo que eu crie uma criança sem pai e me acostume a viver sozinha. - digo e o encaro cansada. -Preciso sair...-digo e tento acalmar minhas emoções enquanto deixo o quarto.
-Não pode fugir no meio da conversa. -ele vem atrás e segura em minha mão.
-Só você pode fugir não é? -Pergunto enquanto nos encaramos por alguns segundos que mais parecia uma eternidade. Vi a tristeza em seus olhos, então eu olhei para nossas mãos e com a outra eu soltei a mão dele da minha e desci as escadas.
Dirigi naquela noite por horas, tentando colocar minhas idéias em ordem. parei em uma cafeteria pedi um pedaço de bolo com um chocolate quente. Deixei meu celular desligado e fiquei olhando pela janela enquanto observava o movimento da rua. As pessoas andando de um lado para o outro, vivendo suas vidas e eu tentando buscar no passado quando conheci Jiyong onde estava minha cabeça para me aproximar de alguém que nem era daqui. Que mesmo descobrindo mais e mais coisas sobre seu passado, me agarrei a ele ao invés de me afastar e cuidar da minha vida.
Jiyong voltou para a Coréia 2 dias depois. Eu não consegui conversar com ele novamente, e disse que precisava de um tempo. Eu não podia tomar qualquer decisão sobre minha vida naquelas circunstancias. Ele viajou sem que nós fizéssemos as pazes, e os dias que sucederam foram agoniantes. Eu estava sempre distraída e ansiosa. Dois meses depois, Clara chegou em casa, parecia ansiosa e um pouco nervosa. Ela e Kim chegaram lá e ela pediu que ele levasse Haru para passear. Eu sentia que ela queria falar algo que provavelmente iria me machucar muito, imaginei que pudesse ter acontecido algo com Jiyang...mas o que estava para vir, eu não estava sequer imaginando.
-Isabel...eu odeio ter que te falar isso, mas me odiaria mais ainda se eu descobrisse e não te contasse. - Ela andava de um lado para o outro da sala, parecia furiosa e ao mesmo tempo angustiada.
-Do que está falando? -me aproximei um pouco dela e ela me encarou com os olhos marejados.
-Jiyong não voltou porque está noivo. -Ela disse e eu fiquei um tempo parada, não sei dizer se estava assimilando a história ou se eu estava em estado de choque.
-Do que você está falando? -Digo e sinto minhas pernas fraquejarem. -Nós somos casados...não tem como ele ficar noivo.
-Ele ficou...-ela pegou o celular e abriu uma notícia em que havia a foto do Jiyong com o braço dado com a Minna. -Minha cabeça parecia que iria explodir, senti a pressão na nuca, um aperto no peito. -O Kim traduziu a página pra mim...fala sobre o noivado dos herdeiros de grandes empresas, e nos benefícios que isso traria.
-Não pode ser...ele não faria isso...-repeti várias vezes em minha cabeça.
-Eu não acreditei também...mas liguei para tirar a história à limpo...-ela se abaixa e eu sinto meus olhos arderem e a respiração ficar fraca. -Ele me pediu para não te falar nada...disse que ele pode explicar e que isso não é o que parece...ele não negou Isa.
-Explicar?! -Me levantei abruptamente. - Explicar o que? Como explica um noivado estando casado? -Me afastei e comecei a andar. -Meu Deus... como eu fui idiota...como eu pude acreditar nele...
-Isa... isso não tem nada haver com você...-ela se aproximou e parou na minha frente e tentou segurar meu rosto.
Eu estava furiosa, me sentindo traída...sentindo o que minha mãe sentiu... percebendo que eu me permiti estar nessa situação... todas lembranças com ele foram se tornando escuras e senti meu corpo ser tomado por uma fúria que eu nem sabia que poia sentir. Olhei nossas fotos nos porta retratos e nos quadros e sem pensar muito no que fazer fui até elas e comecei a quebrar todas. Ouvi quando Clara deu um grito e depois tentou me segurar enquanto eu passava por cada ítem que escolhemos juntos. O sentimento de traição estava forte, a raiva era quase palpável. Depois de quebrar quase todos os enfeites da sala e de estar chorando no chão nos braços da Clara, vi meu celular tocar e a foto o Jiyang aparecer na tela. Chorei mais ainda, deixei tudo sair. Eu não iria permitir me destruir por ninguém. Eu não viveria uma vida que não fosse escolhida por mim. Não deixaria que tomassem decisões em meu lugar e muito menos me permitiria viver em um ambiente de mentiras. Não havia justificativas para o que ele havia feito. Eu sabia que ouvir ele, seria o mesmo que permitir que me manipulasse. Ele estava acostumado a viver em um ambiente de manipulação. Isso eu não aceitaria.
Ali eu decidi...Jiyong fez uma escolha, e eu não aceitaria que ele interferisse nas minhas.
Clara Dormiu comigo naquela noite, estava preocupada comigo. Kim levou Haru para a mãe dele. Fiquei olhando o teto por horas, pensando no primeiro encontro com Jiyong, nossas conversas, nossas noites e no sorriso dele...enquanto as lágrimas escorriam, me levantei, peguei meu celular e fui até nossas conversas. Haviam muitas mensagens, ignorei todas, com as mãos trêmulas digitei:
"Eu escolho uma vida de paz, longe de mentiras...tudo o que desejo é que Haru tenha uma infância feliz, tranquila e saudável...não espero mais que você pense em mim ou que considere nossa relação...mas peço que pense no tipo de vida e ambiente que quer para sua filha...A partir de hoje...não quero mais ver você. Viva sua vida e faça o que precisa...e não me procure mais."
Digitei e fiquei encarando a mensagem por alguns instantes, sentindo a ansiedade e os medos tomando conta de mim. Por fim, enviei aquela mensagem. Assim que verifiquei que ele recebeu, tirei o chip do meu celular, joguei no vaso e dei a descarga. Desci as escadas e comecei a limpar a sala. Organizar cada item em seu lugar. Então subi, tomei um banho e fui até o quarto da Haru, arrumar nossas coisas. Jiyong voltaria para tentar me convencer que aquilo era um mal entendido, talvez vir com uma história de que aquilo era apenas para acalmar os acionistas... e seja qual for a história, eu não iria aceitar.
Quando Clara acordou, me ajudou a arrumar as coisas sem fazer perguntas. Então começou a me ajudar a achar um lugar para ficar, eu deixei tudo pronto e peguei uma pequena mala e aluguei um hotel para ficar com Haru até que Jiyong fosse embora novamente. Ele havia dito ao Kim que estava vindo, e eu não queria estar aqui quando ele chegasse. Agora eu não precisava mais de seu esforço.
Fechei esse capítulo da minha vida, e apesar de triste, magoada e incerta do que esperar...também estava segura da minha decisão.
""
-Haru...-chamo enquanto ela estava em frente ao espelho passando um batom totalmente fora dos lábios. Haru estava com 4 anos, era uma criança alegre e muito comunicativa. Era curiosa e gostava de saber tudo o que estava acontecendo a sua volta.
-Estou me arrumando. -Ela diz e coloco a tigela de sucrilhos dela na mesa enquanto pego uma manga para descascar e a encaro com um sorriso no rosto.
-Vem tomar café que sua madrinha chega em alguns minutos para vocês irem ao parque.
-Estou linda? -Ela faz um biquinho e uma pose e eu me aproximo daquele pedaço de gente e a pego no colo.
-Você está sempre linda. - Comecei a enche-la de beijos e ela soltou sua gargalhada que eu tanto amava.
-Para mãe...vai borrar minha maquiagem. -ela diz e eu a levo para a mesa. -A dinda vai gostar?
-Claro que sim.
Haru tinha o cabelo cortado em chanel, e eu mantinha a franja sempre cortada. Ela sentia muito calor e não gostava quando ele crescia. Diferente de mim, ela era uma criança que não se importava de estar no centro das atenções, mas ao mesmo tempo era meiga e muito carinhosa.
-Bom diiiiiaaaaaa! -Clara entrou com toda aquela animação e a Haru logo enfiou uma colher de sucrilhos na boca e se levantou na cadeira com muita animação por ver a madrinha ela. Agarrei ela para não cair e a coloquei no chão e ela correu até a Clara. - Vai engasgar... mastiga devagar. -Ela pegou a Haru no colo e veio até a mesa para se sentar na cadeira.
-Ela está ansiosa para ir nesse parque. -sorrio enquato vou até a pia e me preparo para lavar a louça.
-Kim e eu pesquisamos um que ela possa ir em quase todos os brinquedos.
-Eu sou pequenininha dinda? -Clara a coloca no chão e fica em pé, medindo sua estatura.
-Não...você está enorme, mas tem brinquedos que o cinto não vai te segurar bem...então é mais seguro ir onde você vai caber certinho, né?
-Siiiiiiiiiim. - ela á um pulinho e depois a Clara levanta uma sobrancelha e sorri.
-Agora vamos lavar seu rosto e passar protetor para você não se queimar. -ela seguiu com Haru enquanto eu terminava e louça e cortava a manga em pedacinhos para um lanchinho mais tarde da Haru. -Você ía eixar ela sair com a boca daquele jeito? -Ela pergunta e começamos a rir. -Ela fica uma graça, mas não faria isso com ela.
-Ela agora está colecionando batons...estou tentando achar uns infantis com as cores que ela gosta, mas está difícil. - digo e fecho a tampa do potinho com mangas e coloco na bolsinha dela com água, lencinho, roupa extra e um boné. -Clara...só tenho a agradecer você e o Kim serem tão presentes na vida dela...Haru é tão feliz e tão...inteligente...sabe, ela ama estar com vocês e...
-Para com isso... ela é muito amada... e engraçadinha... nós é que ganhamos estando com ela. -Ela diz e me dá um abraço. -Obrigada por esse furacãozinho que colocou em nossas vidas.
sorrimos uma para a outra e logo Haru aparece com uma bota vermelha, um short amarelo e uma blusa rosa, além de ter reforçado o batom. Paramos e encaramos ela e sorrimos.
-Como estou dinda? -ela colocou a mão na cintura e Clara e riu.
-Linda demais...- ela disse e eu me aproximei.
-Amor, está muito quente para usar essa bota de chuva, e... você vai em um parque, viu que sua Dinda não colocou maquiagem? É porque vai ficar borrando quando você tomar sorvete... vai ser Difícil tomar sorvete com batom na boca.
-Ela inclinou a cabeça para olhar para o lado e depois sorriu.
-Posso usar minha roupa e girafa?
-Claro...eu te ajudo. -Fui até o quarto com ela e coloquei a jardineira que tem uma Girafa desenhada na parte da frente, uma blusinha amarelinha e o chapéu amarelo de girafa com orelhinhas. Coloquei um tênis nela e depois segui para a sala.
Haru ficava bem quando estava com Kim e Clara, na verdade ela amava estar com eles. Eu pensava em Jiyong ainda, mas estava grata pela minha vida de agora. Eu conseguia viver em paz, sem estar ansiosa para saber se ele voltaria ou não. Haru tinha uma vida tranquila e aquilo bastava pra mim. Mas eu sempre me perguntava...até quando eu teria tanta tranquilidade. Será que a família do Jiyong nos deixaria em paz, será que ele não tentaria ter a guarda da Haru em algum momento? Sempre que esses pensamentos vinham a minha cabeça, eu logo pensava em outras coisa e tentava me distrair.
Preparei um suco, fui até minha varanda e sentei em uma cadeira de descanso que havia ali, me apoiei e fiquei olhando o horizonte...nesses momentos eu sempre me perguntava... o que ele estaria fazendo? O que estaríamos fazendo se ele estivesse aqui. Eram perguntas que jamais teriam respostas...
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Stupid Liar
Hayran KurguIsabel, uma garota determinada, centrada ,cheia de sonhos e planos para seu futuro, mas que guarda algumas mágoas do passado que a impedem de permitir que ela se apaixone, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando conhece Kwon Ji-Yong, um garot...
