Eloise estava sentada em sua mesa no escritório da universidade, digitando mecanicamente as notas dos últimos trabalhos de seus alunos. Cada batida do teclado parecia ecoar em sua mente, uma distração para abafar o turbilhão de pensamentos e emoções que a consumiam. Sete meses. Sete meses de uma vida que ela jamais imaginou viver. Sete meses desde que Theo, o homem com quem ela havia construído planos, sonhos e uma vida, começou a se tornar um completo estranho. No início, foram palavras duras, seguidas por explosões de raiva. Depois, vieram os empurrões. E, agora, as agressões físicas tinham se tornado parte de sua rotina sombria.
A porta do escritório se abriu, tirando-a de seu transe momentâneo. Charles, um de seus colegas de departamento, entrou acompanhado de sua namorada, Rosamund. Os dois eram inseparáveis e sempre pareciam estar em sintonia, o que fazia Eloise se sentir ainda mais isolada em seu relacionamento tóxico.
"Eloise, aí está você!" - ele disse com um sorriso largo. - "Estamos pensando em sair, você vem com a gente?"
Eloise levantou o olhar, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos.
"Ah, obrigada, mas acho que vou ficar por aqui e terminar essas notas."
Rosamund, que estava observando Eloise com um olhar mais atento, aproximou-se e colocou a mão no ombro dela.
"Você parece tão cansada, Eloise. Está tudo bem? Ultimamente você tem estado... um pouco distante."
O coração de Eloise apertou. Ela sabia que não estava mais conseguindo disfarçar como antes. As olheiras, as expressões tensas e a forma como seu corpo encolhia a cada toque ou gesto brusco - tudo isso estava começando a se tornar evidente para quem prestava atenção.
"Eu... é só o trabalho. Tem sido exaustivo ultimamente. Nada com que se preocupar."
Ela tentou manter a voz firme, mas sentiu um leve tremor, como se a fina parede que ela havia construído ao redor de sua dor estivesse prestes a ceder.
Charles, percebendo o desconforto dela, tentou aliviar a tensão com uma piada.
"Bom, se é só o trabalho que está te consumindo, podemos invadir sua sala e confiscar esses papéis."
Mas Rosamund não estava convencida. Ela conhecia Eloise há tempo suficiente para perceber que havia algo mais. Havia uma escuridão nos olhos dela que não tinha nada a ver com cansaço profissional. Rosamund puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela, ignorando momentaneamente o olhar desconfiado de Charles.
"Eloise... você sabe que pode falar com a gente, certo? Se há algo acontecendo - seja pessoal ou profissional - estamos aqui. Eu... Eu sei que não somos tão próximas, mas me preocupo com você."
A garganta de Eloise apertou. A generosidade e o carinho nas palavras de Rosamund quase a fizeram desmoronar ali, na frente deles. Ela sentiu as lágrimas se formarem, mas piscou rapidamente, tentando afastá-las.
"Obrigada, Rosamund. Realmente, é muita pressão aqui no trabalho... e algumas coisas pessoais. Mas... estou lidando com isso."
Ela sabia que era uma mentira, e tinha a sensação de que Rosamund também sabia. Mas, naquele momento, Eloise não conseguia reunir forças para contar a verdade. Como ela poderia? Como explicar que o homem que todos viam como charmoso e encantador a estava destruindo lenta e silenciosamente? Como contar que, todas as noites, quando voltava para casa, ela não sabia se enfrentaria mais um episódio de agressão?
Charles interrompeu os pensamentos de Eloise.
"Você realmente precisa de um tempo para si. Não deixe que o trabalho te consuma. Talvez devesse tirar alguns dias de folga."
Eloise riu sem humor.
"Dias de folga não resolveriam o problema, Charles."
Ela imediatamente se arrependeu de ter deixado escapar essa frase, percebendo o quanto soava amarga e pesada.
"Eloise..." - a voz de Rosamund era suave, quase sussurrada. - "Você tem certeza de que é só o trabalho?"
A pergunta pairou no ar por alguns segundos, enquanto Eloise tentava processar como responder. Ela sentiu como se estivesse numa corda bamba, dividida entre o desejo desesperado de pedir ajuda e o medo esmagador de expor seu segredo. Os olhares gentis de seus colegas a faziam querer desmoronar e confessar tudo, mas a imagem de Theo, com os punhos cerrados e a voz carregada de raiva, a silenciava.
Eloise balançou a cabeça, tentando afastar as lembranças.
"Eu... só preciso de um tempo. Talvez vocês estejam certos. Um tempo longe daqui poderia ajudar."
Rosamund apertou o ombro dela com gentileza.
"Você não precisa passar por nada sozinha. Sabe disso, certo?"
"Sim, estamos aqui. E, olha, não é como se estivéssemos tentando invadir sua privacidade, mas realmente nos importamos com você. Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, pode contar conosco." Charles completou.
Eloise assentiu, mas as palavras deles soaram distantes. A realidade era que, mesmo com toda a boa vontade do mundo, ninguém ali poderia ajudá-la. Não enquanto ela estivesse presa a Theo. Não enquanto o medo de enfrentá-lo fosse maior do que sua coragem de pedir ajuda.
Seus olhos fixaram-se no relógio da parede. As horas pareciam passar devagar demais. O fim do expediente se aproximava, e com ele, o momento de voltar para casa. A simples ideia de encontrar Theo a fazia estremecer. O que a aguardava naquela noite? Outro acesso de raiva? Outra discussão que terminaria em empurrões? Ou talvez ele estivesse calmo, mas o silêncio entre eles seria tão opressor quanto qualquer grito.
Rosamund e Charles continuaram falando, tentando puxar algum assunto mais leve, mas Eloise mal ouvia. Sua mente já estava distante, tentando traçar um plano para sobreviver àquela noite - e a todas as outras que viriam. Afinal, sobreviver era o que ela vinha fazendo há meses. Sobrevivendo em silêncio, sem que ninguém ao redor percebesse o quão fundo ela estava afundando.
Ela suspirou, levantando-se da cadeira.
"Eu acho que vou para casa agora. Talvez um pouco de descanso me ajude."
Charles sorriu, ainda que com uma expressão de preocupação no rosto.
"Se precisar de qualquer coisa, não hesite em nos chamar, ok?"
Eloise forçou outro sorriso e acenou.
"Obrigada, pessoal. Eu realmente aprecio isso."
Enquanto ela recolhia suas coisas e saía do escritório, sentia o peso da situação esmagando-a mais uma vez. As palavras gentis de seus colegas foram como um bálsamo temporário, mas no fundo, Eloise sabia que a verdadeira batalha começaria assim que ela cruzasse a porta de casa.
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My Salvation - Philoise
FanfictionQuando eu me vi perdida em meio às minhas tempestades, você foi o meu raio de sol... Quando pensei que estava destinada a sofrer, você trouxe a luz que eu jamais imaginei encontrar... Eloise Bridgerton passou anos aprisionada em um relacionamento se...
