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Além do Espelho

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O ano havia começado de maneira agitada para Phillip. Depois de meses sombrios lidando com a morte de sua mãe e a reconstrução de sua vida familiar, ele se afundou no trabalho. Era uma distração bem-vinda, algo que o mantinha ocupado e longe dos pensamentos que sempre o perseguiam durante as noites solitárias. Michaela, como sempre, foi uma constante em sua vida. Ela sabia exatamente quando apertar o botão de “pausa” e lhe dar um tempo, mas também sabia como trazer Phillip de volta ao ritmo quando ele estava pronto para seguir adiante.

Hoje, Michaela tinha solicitado sua presença com uma certa urgência. O site estava movimentado, e o "Dourado", como Phillip era conhecido, estava fazendo sucesso. As clientes tinham gostos variados, mas todas queriam uma coisa em comum: a sensação de exclusividade. O traje de Phillip, feito sob medida, era parte desse apelo. Para aquela noite, ele havia escolhido algo diferente, todo banhado a couro. A textura rígida, o toque que misturava força e sensualidade, e a aparência dominadora que esse traje proporcionava eram o que muitas de suas clientes desejavam.

O nome Sienna Rosso tinha surgido no radar de Michaela há algum tempo, uma cliente fiel e de alto nível, conhecida por frequentar os círculos sociais mais prestigiados de Londres. Embora tivesse utilizado os serviços de outros homens da empresa de Michaela, seria a primeira vez com Phillip. Ele já tinha ouvido histórias sobre ela: bonita, inteligente, e com um ar de mistério que atraía todos à sua volta. A expectativa era grande, mas Phillip, sempre profissional, abordava cada novo encontro com uma calma metódica.

Naquela noite, ele a encontrou em um dos hotéis mais luxuosos da cidade. Sienna era uma mulher elegante, de cabelos castanhos ondulados e olhos castanhos intensos. Ela vestia um vestido de seda vermelho que realçava suas curvas com sutileza, e o perfume que usava envolvia Phillip assim que ele entrou na suíte. Ela o saudou com um sorriso tranquilo, mas seus olhos brilhavam com algo que ele ainda não conseguia decifrar.

"Phillip, certo?" ela perguntou com uma voz aveludada, oferecendo-lhe um copo de vinho enquanto se sentava no sofá espaçoso.

"Isso mesmo", respondeu ele com um sorriso controlado, sentando-se ao lado dela, mas mantendo uma distância educada. "Michaela me falou um pouco sobre você. Estou aqui para te proporcionar a melhor noite possível."

Sienna riu suavemente, sua voz parecia derreter o ar ao redor.

"Isso eu não duvido", disse ela, inclinando-se um pouco mais perto. "Mas antes de começarmos, eu gostaria de conhecê-lo um pouco melhor, se não se importa."

Phillip estava acostumado a essas introduções. Algumas clientes preferiam pular direto para a parte física, enquanto outras, como Sienna, gostavam de construir uma conexão antes. Ele se preparou para uma noite de conversas superficiais, onde a troca de palavras e olhares servia como preliminares para o que viria depois.

"Claro. O que gostaria de saber?" Ele perguntou, tomando um gole de vinho.

"Você está há quanto tempo nesse trabalho?" Sienna começou, cruzando as pernas e observando-o atentamente.

"Alguns meses", ele respondeu, mantendo a resposta vaga. A última coisa que ele queria era compartilhar detalhes pessoais demais.

"E o que te fez escolher esse caminho?" Ela continuou, com uma curiosidade genuína na voz.

Phillip já estava habituado a essa pergunta. Ele costumava responder algo sobre o fascínio pelo prazer alheio e pela liberdade financeira que o trabalho lhe proporcionava. Mas, naquela noite, por alguma razão, ele sentiu um peso ao pensar nisso.

"Circunstâncias da vida", disse ele, simplificando. "Às vezes, a vida te empurra para caminhos inesperados, e você aprende a se adaptar."

Sienna assentiu, parecendo entender o que ele queria dizer, mas logo sua expressão se suavizou. Ela inclinou a cabeça de leve, olhando Phillip diretamente nos olhos.

"Você gosta?" Ela perguntou, sua voz ficando mais baixa. "Quero dizer, de ter relações só por ter? Sem conexão real, sem sentimentos envolvidos. Não te cansa, Phillip?"

A pergunta pegou Phillip desprevenido. Ninguém havia feito uma pergunta tão direta e pessoal como aquela antes. Ele estava acostumado a ser um objeto de desejo, uma fantasia viva, mas Sienna... Sienna estava penetrando além da superfície. Ele piscou, tentando encontrar uma resposta que não soasse defensiva ou desprovida de verdade.

"É um trabalho, como qualquer outro", começou ele, tentando se manter firme. "Nem sempre envolve sentimentos, mas também não precisa, certo?"

Sienna deu um sorriso triste, como se soubesse que aquela resposta não era toda a verdade. Ela tomou outro gole de vinho antes de continuar.

"Não estou te julgando, Phillip. Só estou curiosa. Você, um homem como você, deve ter algo mais dentro de si, algo além desse papel que interpreta todas as noites."

Ele ficou em silêncio por um momento, sentindo um desconforto inesperado crescer dentro dele. O que ela estava sugerindo? Ele sempre fora bom em separar sua vida pessoal do trabalho, ou pelo menos achava que era. Mas agora, as palavras de Sienna ecoavam em sua mente, fazendo-o questionar algo que ele nunca havia permitido emergir.

"Às vezes, me pergunto a mesma coisa", admitiu Phillip, finalmente, a voz mais baixa. "Mas me acostumei a seguir o fluxo. É mais fácil assim."

Sienna se aproximou mais um pouco, sua mão tocando levemente o braço dele.

"Você merece mais do que só seguir o fluxo, Phillip. Você merece encontrar algo real, algo que te faça sentir vivo."

Aquelas palavras ressoaram profundamente nele, mais do que ele gostaria de admitir. Phillip desviou o olhar, encarando a janela do hotel, onde as luzes da cidade brilhavam intensamente. Aquele cenário, tão familiar e ao mesmo tempo tão distante, parecia refletir sua própria vida. Ele tinha tudo sob controle, pelo menos na superfície, mas lá no fundo... o que havia sobrado para ele? O trabalho, as noites com mulheres que o desejavam, a fachada de perfeição... e nada além disso.

"E você?" Perguntou ele, virando-se para encará-la. "Por que continua vindo a encontros como esse se está procurando algo real?"

Sienna riu de leve, um som suave e melancólico.

"Talvez porque, assim como você, eu tenha me acostumado. A ideia de algo real às vezes parece tão distante, que é mais fácil se contentar com o imediato, com o que está ao alcance. Mas, de vez em quando, eu ainda me pergunto... se vale a pena continuar procurando."

Phillip balançou a cabeça, processando as palavras dela. A conversa tinha tomado um rumo que ele não esperava. Ele tinha vindo para aquela noite esperando o usual: atração física, prazer mútuo, talvez uma ou duas conversas triviais. Mas agora, estava sendo confrontado com questões que ele nunca parou para pensar profundamente.

"Não sei, Sienna", disse ele, a voz pensativa. "Às vezes, sinto que essa vida... é tudo o que tenho. E ao mesmo tempo, me pergunto se isso é suficiente."

"Talvez não seja", disse ela, suavemente. "E talvez esteja tudo bem em admitir isso. Todos merecem mais do que uma existência superficial, Phillip."

Aquelas palavras ficaram ecoando na mente dele muito depois que a noite terminou. Quando voltou para casa, Phillip não conseguia se livrar da sensação de que algo dentro dele havia mudado, como se Sienna tivesse plantado uma semente de dúvida que agora crescia, lenta e silenciosamente. Pela primeira vez em muito tempo, ele se pegou pensando na vida além do trabalho, além das aparências, além das noites que ele vivia em ciclos.

E a pergunta que ecoava dentro dele era simples, mas devastadora:

Será que isso é o bastante?

My Salvation - Philoise Histórias para pegar e não largar. Descubra agora