35 Noite Fria

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Na madrugada.
~ Violet Claire~

Paro de roer unhas quando sinto meus dedos doerem. Parece loucura, é loucura o que eu estou fazendo. Porra. Ouvir o que as pessoas falam de você é ruim, mas se afastar repentinamente de uma pessoa dói mais ainda. Olívia está quieta, mas sinto seus olhares curiosos, o resto da minha equipe não fala nada, apenas observa e me informa que já estamos prestes a embarcar no jato.

Alugar um jato particular de repente foi complicado, me sinto ainda pior por colocar minha equipe nessa situação de madrugada. Mas... não conseguia mas pensar em nada. Ouço alguns passos leves se aproximando.

— Violet... já está tudo pronto. - diz, percebo na voz de Liam o quão cansado está. Ele dá um sorrisinho de leve e se afasta.

Agarro a mala e vou em direção ao avião que já me espera. Olho um pouco para trás antes de entrar, deixar o solo daqui é uma sensação estranha. Deixar o meu país, a minha família, deixar Peter, tudo. Volto a caminhar em direção a porta.

Travo imediatamente quando uma voz me chama. Olívia está parada logo atrás de mim com os braços cruzados, me olha como se implorasse para ser ouvida.

— Podemos conversar? - ajeita seu fio de cabelo que voa pelo vento.

Me viro novamente vendo já alguns dentro do avião mas confirmo. Caminhamos para longe das pessoas e percebo que seu corpo exala ansiedade, ou talvez medo. Olho para meus pés esperando ela conversar.

— Violet.... Você... você tem, eu não sei, eu realmente não sei o que está acontecendo... você tem... certeza do que está fazendo? - sua pupila dilata com sua irritação.

Respiro fundo. Não existe resposta para essa porra de pergunta. Dou de ombros, não consigo nem forçar um sorriso.

— E-eu não... - tento. Olho ao meu redor batendo as mãos nas pernas, buscando uma resposta. — Eu não sei, Olívia. Porra... eu não sei. Parece.... Parece o mais certo a se fazer, eu não sei. - gaguejo sem parar.

— O mais certo? - irônica ela vira para os lados.

— Olívia, eu não aguento mais viver com o mundo caindo em cima de mim. E-eu só preciso de tempo. - falo alto demais, coloco a mão na boca para conter minha voz.

A mesma novamente arruma o cabelo que voa sem parar em seu rosto.

— Você entende que está desistindo de tudo? - pressiona. — Esta deixando tudo para trás! Está abandonando seu país! Sua família! O Bruno- a corto antes que continue.

Sinto meus olhos começarem a tremer e encher de água. Seco antes que algo escorra pelas minhas bochechas, quando percebo, estou berrando.

— E-eu não aguento mais isso! Essa pressão. Eu estou a beira de um colapso! Eu recebo mensagens de pessoas me ameaçando! Mulheres mortas todos os dias na minha caixa de mensagem caralho. Eu só preciso de um pouco de tempo, porra. - berro cada vez mais alto. Percebo meu rosto molhado e me irrito ainda mais. — Eu só preciso entrar nesse avião e ir para bem longe... e também preciso que você seja um pouco profissional. - as palavras saem como uma faca.

Parecendo incrédula ela simplesmente pisca lentamente. Saio dali e volto correndo para o avião. Me arrependo na mesma hora do que falei para Olivia, mas não consigo voltar a dizer mais nada. Sento distante da morena que olha para mim de vez em quando e volta a mexer no próprio celular.

Percebo uns cochichos durante o voo sobre como ficaram as coisas no futuro. Não dá para pensar, meus pensamentos estão um verdadeira bagunça do caralho. Não consigo manter uma linha reta de raciocínio sem pedras entrarem no caminho. Não falar sem meus olhos começarem a lacrimejar de repente.

Parece que um peso está sobre mim , uma nuvem carregada. Me sinto pesada, como se de repente a cabeça pesasse muito mais sobre o corpo. Deixo o celular de lado para que eu não corra o risco de mexer nele, ou de quem sabe mandar uma mensagem para Bruno e acabar falando um monte de besteira.

Ah.
Bruno.
Peter.

Eu simplesmente abandonei tudo que estávamos construindo, me sinto ainda mais carregada por isso, mas não tenho coragem de abrir o celular e enviar uma mensagem avisando do que estou fazendo. Não quero que ele sofra, por mais que fingisse não ligar, sei que se importava. Todos nós nos importamos. Afinal, como ele mesmo disse em seu discurso, somos humanos.

Temos sentimentos. As vezes por sermos pessoas públicas os outros pensam que somos de mentira, que nada atravessa a tela, que somos todos frutos de uma inteligência. Mas somos de pele e osso. Dói fisicamente quando alguém critica algo que você faz ou fez, não é só uma porra de um comentariozinho em uma foto. É muito além.

Desligo o celular, para que não corra risco de eu abri-lo. Deito e tento relaxar, meus músculos estão mais contraídos que nunca. Talvez eu devesse ir em um massagista, ou em um psicólogo.

Quando eu comecei a ser uma pessoa pública, alguns comentários ruins começaram a surgir, não eram muitos mas o bastante para começar a me incomodar. Minha mãe não sabia muito bem como lidar e fomos instruídas pela equipe de Madison a fazer terapia. Eu fiz por muitos anos, principalmente quando virei o maior assunto da internet. Todos os dias e várias e várias sessões. Mas... quando voltei a fazer os shows e turnês, quando me recompus... eu parei, eu achava que estava curada dessa merda.

Caralho, até parece.

Em cima dos palcos Histórias para pegar e não largar. Descubra agora