37 Miranda

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Violet Claire

Eu nem sei mais que dia é hoje, que mês estamos. Já fazem alguns dias que eu não tenho nenhuma notícia de Bruno, e ele não tem minha, disso eu sei. Já fazem dias que não converso com Olívia, estamos distantes, eu não gosto disso... mas sei que a culpa é minha, eu a afastei.

Meu celular está criando mofo em cima da minha escrivaninha, eu abria, olhava as redes sociais, abria o contato das pessoas que eu me afastei e desligava.

Calço os sapatos para ir na cozinha, eu aluguei uma casa afastada. Minha barriga parece que vai colar nas costas de tanta fome que eu sinto, deve ser umas quatro da tarde e eu pulei o almoço e o café. Quando chego vejo a Dona Rosa, a cozinheira da casa, a comida dela é muito boa.

Está sempre um pouco distraída, tanto que nem me ouve chegar. Abro um armário e pego um biscoito qualquer, antes de sair ouço um gritinho.

— Oh, senhorita... nem a vi entrando. - diz com um sotaque mexicano, ela rapidamente tira os fones de ouvidos, os deixando pendurado na sua roupa.

—Esta tudo bem... não precisa se preocupar. - digo me referindo a comida e ela logo faz um sinal com a mão e começa a rir.

— Ah não... eu preparo um lanche para você. - antes que eu possa falar algo ela levanta um dedo. — Eu insisto. - fala rindo.

Sorrio sem mostrar os dentes e me aproximo ficando no balcão. Conversamos por um tempinho e por um segundo escuto uma melodia bem baixinha, reparo que vem de seus fones. Antes que ela volte a falar, reconheço a música que toca.

É minha.

Com um sorriso com covinhas no rosto ela me traz um sanduíche enorme. Covinhas. É bom lembrar disso. Agradeço-a e dou uma abocanhada ainda ouvindo o som baixinho. Não demora até ela desligar e deixar o celular de lado, eu não contei a ninguém que trabalha aqui o porque estou aqui, como fico a maioria do tempo no quarto é difícil me verem.

Apenas pedi sigilo sobre onde estou. Ouvir alguém ouvindo minha música é uma sensação estranha, é boa... muito boa. Antes que Dona Rosa volte a fazer seus afazeres ela se volta para mim:

— Desculpe senhorita... não quero ser inconveniente mas...ah, sei que não devia, mas minha hija gosta muito de suas canciones... - ela parece parar e pensar um pouco. — Músicas. - parece finalmente se lembrar da palavra, por mais que eu já tinha conseguido entender. — Enfim... acho que ela gostaria que soubesse. Agora, aproveite o lanche. - diz dando um sorrisinho nervoso e se voltando para a bancada.

Paro e reflito um pouco sobre suas palavras. Foi estranho e bom ouvir isso. Estranho por que eu estava achando que estava sendo tão cancelada que ninguém ouvia mais nada e bom por saber que ela ouve e gosta.

— Dona Rosa... qual é o nome dela? - pergunto e a mulher baixinha se vira parecendo ainda mais animada.

— Miranda. Aquela que deve ser admirada... sempre gostei de nomes com significados. Violet... pequena Violeta... bonita como uma flor. A senhorita carrega o significado do seu nome. - termina.

— Com certeza Miranda também. - digo dando algumas mastigadas para engolir. — E não pense que vai escapar, Rosa também é uma flor... deve ser algo como Beleza e pureza. - aponto um dedo para seu rosto e ela parece ficar sem graça.

— Oh, deixe disso... agora coma- diz como uma mãe mandona mas logo dá uma alta gargalhada.

Penso e penso e penso enquanto mastigo a bomba de sabores de Dona Rosa. Miranda. Rosa não deve ter contado a ela que está trabalhando aqui, gostaria de mandar um vídeo para ela, mas situação não está as das melhores para eu cair na internet. Miranda ficaria feliz em saber que eu sei dela. É incrível saber que faço alguém se sentir feliz por ser apenas quem sou.

Nos shows essa é a melhor parte, ver os sorrisos nos rostos de todos, ver mais de 100 mil pessoas reunidas cantando sua música, é mágico. A única parte ruim é que com os muitos celulares levantados para mim mal consigo ver os rostos. Mas ainda assim é incrível como um tchauzinho faz um sorriso enorme crescer.

Saber que tantas pessoas pagaram um ingresso para ver você, só você. Ouvir sua voz pessoalmente, só sua. Ficaram horas e horas na fila esperando pelo seu show. É loucura. Bom, pelo andar da carruagem isso não acontecerá de novo tão cedo, talvez nem volte a acontecer.

Sou arrancada de meus pensamentos por Rosa, que volta a falar:

— Quando pretende voltar aos palcos? Mi hija está empolgada para sua volta. - diz animada, e por aí percebi que ela não faz ideia da situação atual em que minha imagem se encontra.

Ela não faz ideia que está com a pessoa mais odiada de todos os tempos na sua frente. Desvio o olhar para o lanche quase todo comido na minha frente, engulo a comida e volto a encarar seus olhos sorridentes.

— Eu ainda não sei... sabe, alguns probleminhas atrapalharam meus planos. - o sorriso no rosto da senhora a minha frente se desmancha em questão de segundos.

Ela leva as mãos no peito, como uma mãe faz quando vê que o filho caiu no chão de bicicleta.

—Ah... mil perdões por me intrometer. - diz transmitindo culpa, levanto uma das mãos e fazendo um sinal aleatório enquanto agarro o sanduíche com a outra e dou uma mordida.

Sorrio frouxo.

— Tudo bem.... - explico terminando de comer. — Estava divino. - digo me levantando e entregando-lhe o prato.

Ela sorri novamente e volta a pôr os fones. Antes que eu saia da cozinha ouço a melodia de I Know. Essa foi uma das minhas últimas músicas que lancei e uma das mais surpreendentes. Eu a lancei a noite e depois fiz uma resenha em casa para comemorar. Estava morta no fim de tudo e fui dormir, quando acordei recebi a notícia que estava no top 1 mais ouvidas do mundo.

Parecia que meu peito ia explodir. E ficou em primeiro lugar de todas as plataformas... cogitamos aí a ideia de ser indicada ao Grammy. Mas agora...

Volto ao quarto escuro e sem graça. Pego um bloquinho que eu costumo, ou custumava, escrever as ideias e as músicas e não sei porque eu o peguei. Apenas folhei até a última criação e procuro em todo lugar por uma caneta. Bato no bloquinho pensamos um pouco mais no que escrever.

Fico ali por horas e horas....

Em cima dos palcos Histórias para pegar e não largar. Descubra agora