40 Primeira segunda vez

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Violet Claire

The night is clearer every day.
Time takes more and more to pass...
I am in the depths of the abyss.

Eu não sei porque, eu não sei por onde mas uma vontade repentina passou pelo meu corpo quando ouvi as palavras de Rosa. Uma vontade que durante muito tempo havia me abandonado. Escrever. Compor. Eu não sei porque estou fazendo isso, não será lançado e nunca será ouvido por ninguém mas pouco importa.

Eu apenas quero colocar o vazio que tenho no peito no papel.

The sea is a dark immensity.
The water is like a knife cutting painfully.

Batuco o lápis pelos dentes. Me dói escrever isso, parece que enquanto escrevo todos os meus sentimentos ficam a flor da pele, como um porco espinho quando se sente ameaçando. Sinto uma ardência em meus olhos e percebo que estou a triz de chorar novamente.

Life is a blade that stabes you without pity.
Makes you feel Tiny...

Antes que eu consiga terminar de escrever, uma gota cai em cima do papel, estragando o que eu havia acabado de fazer. Limpo os olhos ao ouvir uma batida frenética na porta. Me levanto receosa, e não me assusto quando abro. O rosto abatido e ansioso de Olívia me encara com pena.

— Violet... eu... eu gostaria de conversar com você. - diz esfregando as mãos uma na outra freneticamente. Ela continua a falar antes que eu possa dizer. — Eu sei que me pediu para ser mais profissional e sinto muito em quebrar isso vindo falar o que eu gostaria. De amiga para amiga. - fala mais firme.

Da minha boca só se sai ar, eu nem ao menos consigo falar. Encaro seus olhos que me encaram como se pedissem por favor. Sem dizer nada, abro mais a porta. Seus cachos passam por mim e a vejo se sentar na minha cama, rolando os olhos pelo quarto, que atualmente, pode ser comparado a um campo de batalha.

Não me sento, apenas abraço meu próprio corpo coberto com uma camisa enorme. Ouço-a puxar o ar para começar.

— Eu quero que saiba que você não está sozinha. Você... tem a mim para contar tudo, tudo Violet e como sua assessora mais acima disso, sua amiga, eu quero o seu bem. - uma pausa para talvez saber como eu reagiria. — não dá para continuar assim. Você está claramente piorando a cada dia. - antes que ela continue, pigarreio.

— Não quero que se preocupe, eu vou melhorar, estou apenas tirando um tempo para mim mesma. - explico e nem eu sinto que essas coisas que saem da minha boca são verdades.

— Não dá para acreditar que uma ferida desse tamanho vá se fechar sozinha. - diz, a testa franzida declara que ela está se segurando para não desmoronar.

Um silêncio se faz. Eu não sei o que dizer.

— Que tal... voltarmos a terapia? - viro de costas sem coragem de encarar seu rosto para mim.

Voltar a terapia seria assumir que eu deixei a Violet do passado retornar. Por outro lado, talvez ela já esteja dentro de mim a dias e eu estou tentando ignorar isso. A terapia me ajudou para caralho, eu melhorei muito e saí do fundo do poço.

— Olívia... eu não sei o que dizer, e-eu nao sei de mais nada - paro de falar antes de começar a gaguejar sem fim.

Ela se levanta e caminha até mim, ao parar a minha frente sinto suas mãos buscarem as minhas e ela parece triste ao ver elas tremendo um pouco. Com um aperto firme ela me faz encara-la.

— Vamos tentar então, eu marco uma consulta e você vê o que acha. Você vai melhorar Vi, a gente tá aqui com você. - a abraço instantaneamente forte, sinto que suas mãos não foram hesitantes em me abraçar de volta.

Aproveito um pouco mais antes de voltar a falar no pé do seu ouvido.

— Me desculpa... - sussurro bem baixinho, quase inaudível mas ela apenas afaga as minhas costas e afirma com a cabeça. — Me desculpa.... - repito várias e várias vezes.

(...)

Um dia depois

Vejo o alvorecer sentada na cama. Estou nervosa. Hoje é a minha primeira consulta com um psicólogo de novo, pensei a noite inteira. Acho que eu não deveria nem ter parado. Estalo os dedos freneticamente que sinto minhas juntas doerem. Já devem ser umas 9:00 da manhã, alguns toquinhos na porta avisam que é Olívia, ela sempre bate de um jeito específico. Da outra vez que bateu estava tão desesperada que nem ao menos notei ser ela.

— Vi? Só queria te avisar que a consulta é 10:30... podemos trazer seu café aqui se quiser... - falou e percebo o receio em sua voz.

— Ah, tudo bem obrigada... não precisa trazer... eu vou descer. - digo a última parte com um pouco de cuidado, minhas últimas refeições fora aquela com Rosa foram todas aqui.

Acho que isso explica os tantos saquinhos de biscoito jogados pelo chão ou as caixas de remédios. Pílulas de vitaminas me manterem em pé por bastante tempo, mas tinha horas que só isso não bastava. Vou até o banheiro e mergulho de cabeça no chuveiro, tentando imaginar a água lavando todo esse mal estar.

Não funciona como eu gostaria. Visto roupas decentes ao invés do pijama, penteio meu cabelo inteiro para trás e desço. Vejo apenas Olívia na mesa do café, mexendo no celular e parecendo me aguardar. Quando percebe minha presença, seu rosto visivelmente triste se transforme em um sorriso forçado.

— Bom dia. - comenta e me chama para a mesa. Respondo igualmente. — Você parece... bem. - tenta.

Sei que não pareço tão bem assim. Talvez um pouco melhor pelo banho gelado que me ajudou a acordar mas as olheiras ainda se fazem presentes, como um panda.

— O que um banho e uma boa comida não fazem, não é? - brinco me sentando. De longe vejo Rosa se aproximar com uma jarra de suco laranja.

Meu preferido. Sorrio sinceramente ao ver. Ela, como sempre, muito sorridente e contagiando por onde passa.

— Ah... Rosa... - digo puxando o sotaque mexicano. — Muchas Gracias. - digo e ela parece um pouco surpresa por eu saber seu idioma.

— Oh, señorita Olívia disse que era seu preferido. - falou colocando um pouco no meu copo.

A vejo dando as costas mas logo a chamo novamente. Essa mesa enorme está muito vazia. Deprimente.

— Rosa! Espere... não quer se sentar? Tome café com a gente. - digo torcendo internamente para ela se sentar.

Seu sorriso dá lugar ao espanto. A mulher que aparenta ser entre os quarenta e poucos anos sorri boba e faz um sinal com a mão.

Muchas Gracias... mas eu- antes que ela negue a corto.

— A mesa está muito vazia... vamos nos faça companhia. - digo inclinando com a cabeça para a mesa enquanto pego um mamão que me encara.

Olívia também se serve enquanto faz um sinal com a mão para que Rosa se aproxime. A mais velha se aproxima parecendo animada como sempre novamente e se senta ao meu lado. Conversamos sobre muitas coisas, inclusive sobre Miranda. Pela primeira vez em muito tempo eu me senti bem pela manhã.

A campainha da casa toca.

— Ah.. está na hora Vi. - diz limpando a boca e se levantando.

— Obrigada pela companhia, Rosa. - digo me levantando junto deixando a mulher terminando sua refeição.

Caminho até o escritório e logo uma mulher aparece na porta. Elegante e elegante. Ela tem cabelos louros presos em um coque, saia longa e um sorriso confiante. Me levanto para falar com a mesma.

Logo Olívia sai, nos deixando sozinhas.

Em cima dos palcos Histórias para pegar e não largar. Descubra agora