60 | Ainda somos palavras não ditas.

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Passei a vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. - Clarice Lispector.

O som das ondas quebrando na praia ainda ecoava em minha mente, mesmo dias após aquela discussão

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O som das ondas quebrando na praia ainda ecoava em minha mente, mesmo dias após aquela discussão. O Rio de Janeiro, com toda sua beleza, agora parecia apenas um pano de fundo para a confusão que habitava meu coração. Mantenho meus olhos fechados, evitando encarar diretamente o sol escaldante que está fazendo durante o meio dia.

Se passou uma semana de tudo. O que parece pouquíssimo tempo na ordem cronológica, mas dentro da minha cabeça, a sensação é de anos de um luto.

Um luto por tudo.

Minha mãe não pôde ficar por mais tempo no Brasil e então nos despedimos no aeroporto, na noite retrasada. Houve muito choro entre ela e minha avó e é evidente que esse tempo serviu para reconecta-las como mãe e filha. E apesar dos motivos deste fato, me alegrou vê-las tão próximas como nunca vi antes nesses quase dezenove anos.

Desde que Pablo e Pedri partiram de volta para Barcelona, a casa da minha avó tornou-se um refúgio silencioso. Melissa decidiu ficar comigo por mais alguns dias, talvez percebendo que eu precisava de alguém, mesmo que eu não conseguisse expressar isso em palavras. E ter a minha melhor amiga ao meu lado, está tornando o fardo de tudo isso, um pouco menos pesado. A loira respeita meu silêncio, me conforta com seus abraços e me faz me sentir segura. Ela é a melhor amiga que eu poderia ter.

Não tenho dúvidas que temos um encontro de almas.

— Você tem certeza de que não quer conversar sobre o que aconteceu? — Melissa perguntou, sentando-se ao meu lado na toalha de praia.

Balancei a cabeça, olhando para o horizonte.

— Não agora. Talvez... talvez mais tarde.

Ela assentiu, respeitando meu espaço.

Mais uma vez.

— Tudo bem. — responde depois de um tempo e se deita novamente, apoiando a cabeça em meu ombro e me fazendo sorrir fraco.

Inclino minha cabeça apenas para depositar um beijo no topo da sua cabeça e solto um suspiro, voltando a olhar o céu. Observo as nuvens se movimentarem lentamente no azulado em cima de nós. Algumas com alguns formatos engraçados os quais começo a tentar desvendar para ocupar a cabeça.

De repente, um formato me chama a atenção e me prende. Ergo meus óculos dos olhos, os colocando no topo de minha cabeça e aperto minhas pálpebras para tentar ver com mais clareza. Meu coração se acelera, como se os batimentos estivessem em minha garganta que seca.

Eu enxergo claramente um neném deitado em uma nuvem.

É inevitável não lembrar do meu filho. Inevitável não pensar em tudo mais uma vez. Sentir como se meu coração estivesse sendo esmagado em mil pedaços. O tempo em que fico olhando para as nuvens, minha vista de embaça, se bagunçando e aos poucos, as formas vão sumindo, dando lugar apenas para borrões.

𝐄𝐋 𝐅𝐔𝐄𝐑𝐙𝐀  - 𝐏𝐚𝐛𝐥𝐨 𝐆𝐚𝐯𝐢Onde histórias criam vida. Descubra agora