63 | Pontes.

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"Eu queimei pontes para me aquecer do frio que deixaram em mim — e segui caminhando com o coração em chamas e a alma inteira."

Foi assim que cheguei até aqui

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Foi assim que cheguei até aqui.

Não tem poesia bonita o suficiente para maquiar a dor de abandonar algo que você ama. Eu fiz isso. Eu deixei. Virei as costas. Não por falta de sentimento, mas por excesso. Por não saber amar sem me perder. Por não saber amar sem destruir.

Faz frio dentro de mim desde então. E às vezes eu ainda tento me convencer de que valeu a pena. Que tudo isso é necessário. Que um dia vai fazer sentido. Mas a verdade é que não faz. Ainda não.

A casa que estou morando com minha avó aqui nos Estados Unidos, tem sido na maioria das vezes, silenciosa. Ela tenta preencher os vazios com cuidados, comida quente e palavras doces. Me trata como se eu ainda tivesse doze anos e me cuida como sempre fez juntamente de meu avô. E, em partes, é isso mesmo que sou: uma menina assustada, tentando parecer mulher enquanto segura pedaços de um coração que nunca mais foi o mesmo.

Ela não pergunta muito. Não força respostas. Só observa. Às vezes me oferece chá, às vezes silêncio. Ambos servem como abrigo. Hoje choveu o dia inteiro. Fiquei sentada na poltrona da sala, com um cobertor nos ombros e um caderno no colo, escrevendo o que não consigo dizer em voz alta. Palavras tortas, pensamentos soltos, dores que não têm destinatário.

Escrevi o nome dele. Mais de uma vez.

Pablo.

E então apaguei. Como quem tenta apagar uma tatuagem com a palma da mão.

A saudade dói em silêncio, mas às vezes grita de madrugada. Ela me acorda com pesadelos em que ele não me reconhece mais. Ou pior: em que ele sorri para outra como sorria para mim.

Não sei se ele está bem. Não pergunto. Não procuro saber. O amor, agora, vive no escuro — onde não machuca, mas também não cresce.

Melissa ainda manda mensagens e conversamos frequentemente. Ela não fala dele. Acho que entende. Ou talvez só respeite meu silêncio.

Sinto falta dela também. De Pedri. Das conversas sem sentido. Do sofá bagunçado. Da cozinha cheia de vozes. Sinto falta de mim naquele tempo. De quem eu era quando acreditava que o amor bastava.

Levantei da poltrona há pouco, sem muito propósito, apenas para me mover. Caminhei até o espelho do corredor e não me reconheci por alguns segundos. Me olhei nos olhos e não vi mais aquela menina cheia de sonhos. Só alguém tentando seguir com as cicatrizes abertas.

Não liguei a TV. Não abri as redes sociais. Qualquer possibilidade de ver ele, mesmo sem querer, seria como cortar a ferida de novo. Eu finjo que superei. Mas é isso — fingimento. Uma performance diária de força que só eu vejo.

𝐄𝐋 𝐅𝐔𝐄𝐑𝐙𝐀  - 𝐏𝐚𝐛𝐥𝐨 𝐆𝐚𝐯𝐢Onde histórias criam vida. Descubra agora