66 | De Volta ao Começo.

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Acordo com a luz do sol batendo direto no meu rosto, atravessando a cortina mal fechada do meu quarto

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Acordo com a luz do sol batendo direto no meu rosto, atravessando a cortina mal fechada do meu quarto. Demoro alguns segundos para lembrar onde estou. Barcelona. Casa dos meus pais. Meu aniversário.

Dezenove anos.

Eu encaro o teto branco por um tempo, com a cabeça apoiada no travesseiro e o coração pesado no peito. A idade muda, mas algumas dores continuam as mesmas. Não me sinto diferente. Só mais cansada.

Há um ano atrás, tudo era diferente. E há seis meses, eu tinha a esperança que esse seria um aniversário ainda melhor.

Mas nem tudo acontece como queremos. Na verdade, quase nada.

Ouço o som abafado da minha avó falando com alguém na cozinha. O cheiro de café fresco e pão tostado chega até meu quarto, mas eu continuo ali, deitada. Passo a mão no celular na mesinha de cabeceira, com a expectativa — idiota — de ver alguma notificação específica. Mas não tem nada. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação.

Nem mesmo dele.

Mas não é isto que estranho. Depois de ter acordado sem mim na cama, Pablo deve ter pensando que fui embora, que o deixei de novo. Mas eu só não queria que ele criasse expectativas em amanhecer ao meu lado. Eu também não queria criar expectativas e, por isso fui embora.

O que estranho de verdade, é nenhum dos meus amigos ter mandado nada até agora. É nítido que as coisas estão diferentes, eu fui embora e sinto que, posso ter magoado todos eles um pouco com meu distanciamento repentino.

Mas não se dá para cobrar atenção de quem está mergulhado em uma penumbra de saudade, solidão e incertezas.

Tinha muita coisa acontecendo. Eu me sentia pesada e não queria colocar o peso em ninguém.

Fecho os olhos, respirando fundo e, bloqueio a tela de novo e deixo o celular de lado, tentando ignorar a pontada no estômago. Me sento na cama e puxo a coberta até o colo. Minha avó bate suavemente na porta antes de entrar com um sorriso delicado no rosto e uma bandeja nas mãos.

— Feliz aniversário, minha menina — ela diz, com aquele olhar que só as avós têm quando querem cuidar da gente até quando o mundo está desmoronando.

Meus olhos se enchem d'água no mesmo instante. Ela coloca a bandeja no meu colo e acaricia meu cabelo com carinho, como se soubesse exatamente o que está passando pela minha cabeça sem que eu diga uma palavra.

— Obrigada, vovó. — murmuro, tentando sorrir, mas minha voz sai rouca.

Ela me observa por alguns segundos, depois beija minha testa e se senta mais confortavelmente ao meu lado da cama, sorrio fraco em sua direção, mas desvio meu olhar ao ouvir batidas leves na porta. Meu sorriso cresce ao ver meus pais, com Henrique em sua frente segurando uma sacola pequena na mão,  enquanto expõe seu sorriso banguela para mim.

𝐄𝐋 𝐅𝐔𝐄𝐑𝐙𝐀  - 𝐏𝐚𝐛𝐥𝐨 𝐆𝐚𝐯𝐢Onde histórias criam vida. Descubra agora