Bárbara ON
Andando na rua, o ar fresco me abraça como um velho conhecido. A brisa suave bagunça alguns fios do meu cabelo, e por um instante sinto a liberdade de simplesmente existir fora das paredes do apartamento, longe da rotina que parece se repetir todos os dias. Aperto a bolsa contra o corpo, ajeitando a alça no ombro, enquanto sigo até o café da esquina.
Aquele café é quase uma extensão de mim mesma. Pequeno, aconchegante, com mesas de madeira gasta e toalhas quadriculadas, cheirando a pão recém-saído do forno e a café forte. Sempre que passo pela porta de vidro, tenho a sensação de que o tempo desacelera. É como se fosse um refúgio particular, onde posso respirar fundo e me perder nos próprios pensamentos sem que o mundo cobre alguma coisa.
Entro, e o sino sobre a porta tilinta suavemente. Há poucas pessoas: um casal discutindo baixinho em um canto, dois estudantes com livros abertos e olheiras profundas, e uma senhora que lê o jornal com ar distraído. Escolho, como sempre, a mesa perto da janela. Gosto de observar a rua, ver a vida dos outros acontecendo lá fora, enquanto eu me permito um pequeno intervalo da minha própria.
Peço um cappuccino e um croissant de chocolate. O garçom sorri, já sabendo o meu pedido de cor, e anota com um gesto rápido. Apoio o rosto na mão, os dedos tocando de leve a pele da bochecha, e deixo a mente vagar.
Penso em Victor.
Victor, com seus olhos sempre sérios, as palavras medidas, a maneira como me olha como se eu fosse a única coisa que importa. Ele me ama. Eu sei disso em cada gesto contido, em cada vez que ele segura minha mão com firmeza, em cada suspiro que escapa no silêncio da noite. Mas amar Victor é como caminhar numa linha reta, sempre firme, sempre segura, mas sem surpresas.
Sinto falta de surpresas.
— Ora, ora…
A voz surge atrás de mim, inesperada, carregada de uma familiaridade que me faz estremecer.
— A vizinha mais gata do prédio.
Meu coração dispara antes mesmo de eu virar. Sinto o rosto esquentar imediatamente, como se tivesse sido pega em flagrante de um pensamento proibido.
É Gabriel.
De mangas arregaçadas, gravata solta, cabelo levemente bagunçado como se tivesse passado as mãos nele sem se importar. Há um ar de despreocupação nele, de quem não se leva tão a sério. Tão diferente de Victor, que jamais permitiria um detalhe fora do lugar, nem no fim de um dia exaustivo.
— G-Gabriel… — gaguejo, a voz falhando. — Você por aqui?
Ele sorri. E não é um sorriso qualquer. É largo, aberto, um daqueles sorrisos que não tem medo de mostrar os dentes, que invade o ambiente como se fosse dono dele.
— Estava passando e vi o café — diz, puxando a cadeira em frente à minha sem nem pedir permissão. — Mas acho que a vista ficou melhor agora.
Quase engasgo com a própria saliva. Olho para a janela, para a rua, para qualquer lugar que não seja os olhos dele.
— Você sempre fala desse jeito com suas vizinhas? — pergunto, tentando parecer firme, mas minha voz sai frágil, quase tímida.
— Só com as mais interessantes. — Ele responde sem hesitar, e o olhar dele não se desvia do meu.
Minhas bochechas queimam, e odeio que meu corpo me traia assim. O garçom volta com meu cappuccino, e Gabriel, sem cerimônia, pede um expresso duplo. Claro. Forte, direto, como ele.
Victor também toma expresso.
Mas com Victor é diferente. Ele toma devagar, quase como um ritual, em silêncio. Gabriel pede como quem está em uma aposta, como se desafiasse o mundo.
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𝓐𝓶𝓪𝓷𝓽𝓮 𝓭𝓸 𝓶𝓪𝓯𝓲𝓸𝓼𝓸.•𝙱𝙰𝙱𝙸𝙲𝚃𝙾𝚁•
FanficONDE- Vιᥴt᥆r Aᥙgᥙ᥉t᥆ ᥱ́ ᥙ꧑ ꧑ᥲfι᥆᥉᥆, ᥱ ᥉ᥱ ᥱᥒᥴᥲᥒtᥲ ρ᥆r ᥙ꧑ᥲ bᥱᥣᥲ ꧑᥆rᥱᥒᥲ. ONDE- Bᥲ́rbᥲrᥲ ᥲᥴᥱιtᥲ ᥉ᥱr ᥲ꧑ᥲᥒtᥱ. °E ᥱᥣᥱ᥉ ᥉ᥱ ᥲρᥲι᥊᥆ᥒᥲ꧑...° ⚠️𝕃𝕖𝕞𝕓𝕣𝕒𝕟𝕕𝕠 𝕢𝕦𝕖 𝕖𝕦 𝕣𝕖𝕤𝕡𝕖𝕚𝕥𝕠 𝕠 𝕒𝕥𝕦𝕒𝕝 𝕣𝕖𝕝𝕒𝕔𝕚𝕠𝕟𝕒𝕞𝕖𝕟𝕥𝕠 𝕕𝕖 𝕒𝕞𝕓𝕠𝕤.
