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Barbara ON

Quando a campainha toca, já é quase sete da noite. Estou de moletom, cabelo preso de qualquer jeito e uma música tocando baixinho na cozinha.

Penso que deve ser Victor que veio, mesmo tendo dito que não conseguiria vim, por causa das suas milhares de reuniões, mas, quando abro a porta, me deparo com Gabriel, equilibrando duas sacolas e um sorriso fácil.

— Boa noite, vizinha. — Ele levanta a mão em saudação. — Espero que você ainda não tenha jantado.

Ergo uma sobrancelha.

— E se eu disser que sim?

— Aí eu me sentiria o maior trouxa do prédio por ter trazido comida demais.

Olho para as sacolas, curiosa.

— O que trouxe?

— Lasanha, salada e vinho. — Ele ri. — Basicamente, o que eu chamaria de plano de emergência para um jantar decente.

Rio, balançando a cabeça.

— Gabriel, você é o tipo de pessoa que chega com vinho sem avisar.

— E o tipo de pessoa que compartilha, se for convidado para entrar — rebate, divertido.

Abro espaço na porta, rindo.

— Tudo bem. Entre, antes que o vinho esquente.

Ele entra, colocando as sacolas sobre o balcão.

O ajudo a desembalar a comida enquanto ele abre o vinho.

Confesso que ainda não tinha jantado, com toda certeza acabaria a noite pedindo um iFood.

O cheiro bom do molho invade o apartamento, misturado ao aroma do vinho recém-aberto. Gabriel parece confortável ali, como se já fizesse parte da minha rotina.

— Bonito o seu apê — comenta, observando as plantas na janela. — Tem personalidade.

Ele sempre repara em todos os cantos do meu apartamento.

Foi assim nas pouquíssimas vezes que veio.

— Obrigada! — digo, pegando duas taças.

— O tipo de lugar que parece abraçar a gente, mesmo esbanjando muito elegância.

A frase me faz sorrir de volta. Servimos o vinho e colocamos a lasanha para aquecer. O ambiente se enche de um calor caseiro, quase familiar.

Sentamos na mesa, e ele ergue a taça.

— Um brinde — diz. — Às noites sem planos que acabam se tornando boas histórias.

— Às boas histórias — repito, tocando minha taça na dele.

O primeiro gole é suave e fácil. Conversamos sobre coisas simples, o trabalho, o caos do trânsito, o elevador que sempre faz barulho entre o quarto e o quinto andar. Gabriel tem um talento natural para transformar o banal em divertido.

— E você, Bárbara? — pergunta, cortando um pedaço de lasanha. — Sempre morou aqui?

— Nesse prédio, não. Mas eu cresci São Paulo, mesmo tendo nascido em Minas Gerais— respondo. — Vim para cá depois que meu pai recebeu uma promoção no antigo emprego.

— E a família? — Ele pergunta com curiosidade genuína, não invasiva.

Por um instante, penso em mudar de assunto, mas o vinho amacia a língua.

— É... complicada — admito, dando um pequeno sorriso. — Minha mãe é o tipo de pessoa que planeja até o que vai sentir.

— E você, não é assim?

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⏰ Última atualização: Oct 19, 2025 ⏰

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