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Seattle, Washington - 2011

Existe uma brincadeira que as crianças fazem quando querem provar quem aguenta mais.

Elas dão as mãos, contam até três e começam a estalar os dedos uma da outra.
Ganha quem suporta a dor por mais tempo.
O jogo só acaba quando alguém diz "para".
Desistir não é proibido, só é visto como fraqueza.

Nunca achei graça nesse jogo.
Talvez porque, cedo demais, eu tenha aprendido que insistir nem sempre significa vencer.

A enfermaria estava silenciosa demais para aquele horário. O tipo de silêncio que só existe depois de um caos prolongado. Alina caminhava com os ombros pesados, ainda sentindo o peso da cirurgia de doze horas quando Owen surgiu ao seu lado.

— Eu acabei de sair de uma cirurgia de doze horas — ela disse, sem parar de andar. — O que você tá querendo agora?

Owen apontou discretamente para o balcão.

— O Derek tá um caco. Acho que ele precisa de ajuda.

Ela suspirou antes mesmo de olhar. Quando olhou, confirmou: Derek estava apoiado no balcão da enfermaria, vestindo roupas de dormir amassadas, o cabelo desalinhado, o olhar perdido de quem não dormia havia dias.

Alina se aproximou e pousou a mão no ombro dele.

— Olha só pra você — disse, avaliando-o. — Tem um bebê recém-nascido e já tá destruído. Eu tive duas e fiquei ótima.

— É porque você é a Mulher-Maravilha — Derek respondeu, com um sorriso cansado.

— Eu sei. Agora vem comigo.

— Onde?

— Até a Mulher-Maravilha precisa dormir. E eu acabei de sair de uma cirurgia de doze horas. — Ela virou-se já andando. — E esse hospital tem muitas camas.

Ela parou, olhou para ele de lado e completou, com naturalidade:

— Então, doutor Shepherd... quer dormir comigo?

Derek riu, cansado demais para disfarçar.

— Isso soou estranho.

— Sim. Mas não seria a primeira vez que a gente divide uma cama.

Ele suspirou, rendido.

— Tem razão. Vamos nessa.

— Me dá a mão — ela pediu. — Você tá horrível.

Eles entrelaçaram os dedos e seguiram para o elevador. Saíram no andar da cirurgia e caminharam até a sala de sobreaviso, ainda de mãos dadas.

— Já pensou que as pessoas que não conhecem a gente devem imaginar coisas bem estranhas? — Derek comentou.

— Tenho certeza absoluta.

— Principalmente o seu novo namorado.

— Eu não tenho um namorado.

— Teria, se quisesse.

— Mas eu não quero. — Alina apontou para a cama. — Agora deita aí e chega pro canto.

Derek obedeceu sem discutir.

— Enfim... vou dormir — murmurou, virando-se de costas e fechando os olhos.

O silêncio se estendeu. Longo. Confortável.
Alina suspirou, virou-se de barriga para cima e encarou o teto.

— Derek... você acha que eu devia continuar saindo com o Andrew? — perguntou em voz baixa. — Ele tá na Alemanha de novo, mas eu pisco e ele aparece aqui. Eu não sei... tô nervosa com tudo isso.

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora