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Seattle, Washington - 2011

É curioso como a vida exige coragem das formas mais simples e mais impossíveis ao mesmo tempo. Um simples "eu te amo" pode se tornar uma ponte sobre o vazio que a distância cria, ou um muro que separa o que mais queremos. E, às vezes, é só quando o silêncio pesa demais que percebemos que não podemos esperar por ninguém para dar o primeiro passo.

O carro avançava pela estrada quase vazia, deixando para trás o brilho distante da fazenda. O céu começava a ganhar tons alaranjados, anunciando o fim da tarde, e a luz entrava pelas janelas abertas, bagunçando levemente o cabelo de Alina.

Ela apoiava o cotovelo na porta, o queixo na mão, ainda com um sorriso pequeno nos lábios, o tipo de sorriso que aparece quando o corpo relaxa antes da mente.

Andrew foi o primeiro a falar, sem tirar os olhos da estrada:

— Acho que esse foi o casamento mais divertido que eu já fui.

Alina virou o rosto para ele no mesmo instante, rindo baixo, incrédula.

— Não fala assim. Isso ainda vai dar o que falar.

Ele sorriu, aquele sorriso tranquilo que sempre a desmontava um pouco.

— Mas tem que admitir que ele foi corajoso.

Ela suspirou, ajeitando a saia do vestido sobre as pernas.

— Talvez eu tenha um dedo ou dois nisso.

Andrew lançou um olhar rápido para ela, divertido e cúmplice.

— Você sempre tem.

O silêncio que veio depois não foi estranho.

Foi confortável.

O tipo de pausa que não precisa ser preenchida.

Alguns quilômetros depois, Alina respirou fundo, como se tomasse coragem para algo simples e, ao mesmo tempo, enorme.

— Então... o que acha de ficar lá em casa hoje à noite?

Andrew piscou, surpreso, e diminuiu um pouco a velocidade do carro.

— As meninas não estão lá?

— Estão.

Ele franziu levemente a testa.

— E não se importa?

Alina negou com a cabeça, os olhos fixos na estrada à frente.

— Não. Você ama elas, e elas te amam. Talvez elas nem entendam, mas...

A voz dela falhou por meio segundo.

Andrew respirou fundo, os dedos apertando o volante com mais força.

— Eu vou amar estar mais perto delas. E de você.

Ela finalmente o olhou.

Havia sinceridade crua ali.

Sem teatro.

Sem promessas grandiosas.

Só verdade.

— Elas precisam de uma figura masculina... o Derek tá ocupado demais com a própria família, meu pai tá longe e... — Alina continuou, mais baixa. — E você é ótimo com elas.

Andrew engoliu em seco.

— Se você soubesse o quanto eu amo aquelas garotas...

Ela estendeu a mão devagar, tocando de leve os dedos dele sobre o câmbio.

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora