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Seattle, Washington - 2011

Para um paciente em estado crítico, um transplante de órgãos significa um novo começo. Mas o corpo é programado para lutar contra qualquer invasor externo. Mesmo quando vem pra salvá-lo. Porque o transplante não garante que a vida será mais fácil. Há o perigo do corpo rejeitar o órgão de forma imediata.

A sala de reuniões estava abafada, apesar do ar-condicionado zumbindo discretamente no teto. As luzes fluorescentes lançavam um brilho pálido sobre a longa mesa de madeira escura, onde Meredith, Cristina, Derek, Callie e Arizona discutiam em vozes cada vez mais tensas.

Alina permanecia sentada à ponta, os olhos fixos na folha à sua frente. Batia a ponta do lápis contra o papel com um ritmo constante, como se cada toque ecoasse o turbilhão de pensamentos em sua cabeça. A conversa ao redor parecia distante, as palavras chegavam abafadas, como se os colegas estivessem falando debaixo d'água.

A mente dela estava em outro lugar.

— Jackson Avery tem mesmo mais voz que todos nós aqui nesse hospital? — questionou Arizona, com a testa franzida.

— Não pode ser verdade. — Cristina cruzou os braços, visivelmente irritada.

— Ele é um membro votante da diretoria. E também representa a Fundação Harper Avery junto com a Ali. — Derek explicou, calmo, como se tentasse conter o incêndio com lógica.

— E os seus 175 milhões de dólares. — acrescentou Callie, com um meio sorriso cético.

— Contra nossos quinze milhões cada. — completou Arizona, dando de ombros.

— De acordo com o Stan, ele não só tem o voto decisivo como pode vetar o nosso. — Derek completou.

— Isso é ridículo. Ele é bolsista. — Cristina retrucou, quase ofendida.

— Você também. — Meredith murmurou, sem levantar os olhos.

— Mas ele é de Plástica. — Cristina insistiu, indignada. — Eu sou eu.

— Não vamos exagerar. — Meredith rebateu, tentando manter o equilíbrio da discussão. — Afinal, é o Jackson. Ele não é um estranho qualquer. Ele é um de nós. Não é, Ali?

O silêncio respondeu por alguns segundos. Alina continuava olhando para o papel, os dedos ainda tamborilando o lápis, agora com mais força. Seu rosto estava pálido, distante. Meredith a encarou, então Arizona a chamou, mais alto:

— Alina?

— Oi? — ela respondeu num sobressalto, como se tivesse emergido debaixo d'água.

— Ouviu o que a gente disse? — perguntou Callie, preocupada.

— Eu... É... licença. — Alina murmurou, já se levantando.

A cadeira rangeu quando ela saiu da sala. As portas de vidro se fecharam atrás dela com um leve clique, deixando um rastro de silêncio desconfortável no ar.

— O que ela tem? — Arizona perguntou, olhando para a porta.

— Sexta-feira completaria cinco anos do dia em que ela e o Mark se casaram. — disse Derek, em voz baixa.

— Ela tá aérea a semana toda. — Meredith comentou, passando a mão pelos cabelos.

— Por isso não nos xingou por falar do Jackson e da fundação. — Cristina concluiu, mais suave do que de costume.

[...]

O ar fresco bateu no rosto de Alina assim que ela cruzou as portas de vidro do hospital. Respirou fundo, sentindo o cheiro úmido de terra e folhas, típico do jardim externo, misturado ao perfume adocicado das flores recém-regadas. A brisa era leve, quase imperceptível, mas o suficiente para afastar, por um instante, o zumbido opressor da sala de reuniões.

Código AzulOnde histórias criam vida. Descubra agora