Berlim, Alemanha – 2010
É estranho como a mente humana pode se tornar o seu pior inimigo.
Às vezes, não é o que está ao nosso redor que nos prende, mas o que carregamos por dentro. Memórias, dores, silêncios... São correntes invisíveis que nos mantêm cativos.
Quando deixei Seattle, não foi só para fugir de um lugar, mas de mim mesma.
Achei que, talvez, colocando um oceano entre mim e tudo o que vivi, eu poderia me encontrar. Mas a verdade é que você nunca pode escapar de si mesmo. A dor, a culpa, o vazio... tudo isso viaja com você.
Eu não sabia se conseguiria me reconstruir, mas tinha uma certeza: precisava tentar, por mim e por elas. Se havia uma faísca de força dentro de mim, mesmo que pequena, era por causa das minhas filhas. Elas me davam um motivo para continuar, mesmo nos dias em que tudo parecia insuportável.
Alina chegou à Alemanha há oito meses em um estado crítico, trazendo consigo as filhas, Hanna e Carollyn, com apenas oito meses. Desde o início, ficou evidente para Andrew que a prioridade não era apenas tratar o quadro psicológico dela, mas também oferecer uma base estável e acolhedora. Ele imediatamente assumiu o papel de apoio central, recebendo-a em sua própria casa, onde ela poderia encontrar conforto e segurança enquanto iniciava o tratamento.
Nos primeiros meses, Alina quase não saía do quarto. Ela permanecia em silêncio por horas, olhando para o nada, recusando-se a comer ou interagir. Andrew percebeu que pressioná-la poderia ser contraproducente. Em vez disso, ele adaptou a rotina para alcançar pequenos avanços diários. Ele levava refeições para o quarto, encorajando-a a comer ao menos algumas colheradas e, quando ela recusava, ele pacientemente esperava e tentava novamente mais tarde.
Com as meninas, Andrew mostrou uma dedicação inabalável. Ele contratou uma babá experiente, para garantir que as necessidades das gêmeas fossem atendidas. Nos dias em que Alina não conseguia sair da cama, ele mesmo cuidava delas, trocando fraldas, preparando mamadeiras e acalentando-as para dormir. Ele entendia que, para Alina, cada pequena interação com as filhas era um passo em direção à reconexão emocional que ela tanto precisava.
Apesar do silêncio dela, Andrew nunca desistiu. Ele introduziu pequenas mudanças no ambiente: janelas abertas para deixar a luz entrar, música suave tocando ao fundo, aromas reconfortantes na casa.
Ele a encorajava, sem pressão, a descer e passar tempo na sala de estar, mesmo que fosse apenas para observar as meninas brincando. Gradualmente, Alina começou a reagir, primeiro com gestos sutis, como segurar as mãos das filhas, depois com passos maiores, como alimentar as meninas ou cantar para elas.
Para Alina, os primeiros meses foram marcados por uma luta constante contra a apatia, mas a presença constante e atenciosa de Andrew ofereceu o suporte que ela precisava. Ele a lembrou de que ela não estava sozinha, mesmo nos momentos em que parecia impossível seguir em frente.
[...]
O dia amanhecia frio em Berlim, com uma fina neblina pairando sobre as ruas, anunciando o início de mais um inverno. O consultório de Andrew Perkins estava iluminado apenas pela luz amarelada de um abajur em sua mesa. O relógio marcava 6h30, e ele já estava sentado, como de costume, revisando os relatórios de seus pacientes antes de começar o dia.
Na mesa, havia um prontuário que exigira mais do que sua atenção médica, exigira sua alma como terapeuta e como ser humano.
Alina Hanna Koracick Sloan.
Estava escrito na capa do dossiê, junto a datas que marcavam oito meses de tratamento.
Ele pegou o último relatório inacabado, recostou-se na cadeira de couro e passou os dedos pelos papéis. Fechou os olhos por um momento, respirando fundo antes de começar a ler.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Código Azul
FanficAlina Koracick sempre teve um destino claro: ser médica, seguir os passos de seu pai como neurocirurgiã. Mas quando ela deixa para trás sua vida em Baltimore e o conforto do Hospital Johns Hopkins para ingressar na residência cirúrgica do Seattle Gr...
